quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SONHOS ACANHADOS

Lembro-me do meu vizinho. Sapateiro duas vezes por ano, no máximo, porque o combate corpo a corpo e verbal que ele mantinha com os pregos, o martelo e o alicate era deveras extenuante. As ferramentas eram todas insultadas por demais, mas mesmo assim teimavam, ora caindo das mãos, ora ficavam escondidas dentro dos próprios bolsos ou debaixo dos pés.

— Ah danadas, vocês vão ver quem manda!

A luta era tão intensa que não podia ser prolongada por mais de dez minutos. Assim, umas meias solas só ficavam prontas ao fim de um mês e tal, para a impaciência dos fregueses que ainda reclamavam do preço alto e da obra mal feita.

O meu vizinho queria lá saber, dedicava a vida a uma causa para ele muito mais importante: O funcionamento dos serviços de correio. Assinava jornais diários e semanais só com o propósito de ver se a correspondência chegava à hora certa. Um atraso, por mais insignificante que fosse, dava logo mote para ele ir para a rua anunciar:

— Não hei-de morrer sem um posto dos correio aqui na terra.

E não. O dia em que um posto dos CTT abriu, apesar de provisório e sem nenhumas condições, o homem sentiu-se com certeza um herói.

Não me lembro é se morreu antes ou depois da grande, moderna e verdadeira estação que agora existe ser inaugurada. Algo com a qual nem ousou sonhar.

sábado, 31 de outubro de 2009

INSTINTO


Apenas disparei contra o espelho em legítima defesa.

domingo, 25 de outubro de 2009

PEDRA ILEGÍVEIL


O medo ata as mãos
Mata o coração
Porque não mergulha nem salta
Fica
No limiar das portas
Enquanto toda a urgência se adia
Tanto por serenidade como por cobardia

O medo transgride o próprio pensamento
Que só se compromete para se mostrar isento
E para parecer que não se atrela
À liberdade pré-definida na tabela
Tão periódica que faz buracos no tempo

O medo desfaz a palavra
Escrita à medo na areia
Mas nesse cálculo já desmedido
Vence mais a vontade que o perigo

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CONTINUAÇÃO


A estrada continua em frente
À espera dos teus passos para não arrefecer

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

CHOCOLATE


São as pétalas dos dias que me alimentam
Às vezes de forma tão inusitada
Que penso: Esta flor será para mim?

Quem me dera saber agradecer...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A TORRE DE BABEL

O melhor tempo e o da expectativa; a realidade é sempre frustrante pois quase nunca corresponde ao grau do nosso empenho. É necessário que haja sempre uma próxima etapa mais aliciante do que a anterior. Isto quer dizer que, as acções da maior parte das pessoas, ocorrem porque há sempre uma tendência para se conseguir outros resultados, mesmo que nunca se alcance o cume da vontade.

Somos inesgotáveis porque as possibilidades também o são.

Concluir uma coisa não nos leva a ficar satisfeitos nos cem, porque acontece logo um regresso ao zero de onde tínhamos partido e aonde a nossa força se mantém intacta, pronta a desenvolver-se mais intensamente.

Todo tempo é de expectativa, estamos num núcleo que se abre ao infinito. Realizar é apenas ir aperfeiçoando pequeníssimos detalhes de uma obra que não nos é dada conhecer na totalidade, pois essa obra excede sempre os limites dos nossos actos. Mas não atingir a totalidade não significa que sejamos sacos rotos, é antes a condição necessária à nossa liberdade. É sempre possível o MAIS sem que o TUDO venha a impor fronteiras ao nosso voo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SETEMBRO SOBRE OS OMBROS


Este ano o Outono ainda arde com Sol
Ainda não começou a cair de cansaço

Mantém as sombras verdes

Sombras plácidas boas para um recolher

De pássaros com silêncio

Boas para um folhear distraído de memórias

Pequenos álbuns de luzes já amarelecidas

Já esbatidas pela repetição dos rostos



Este ano o Outono tem uma lista de nomes a menos

Mas a melancolia ainda está por chegar



Por enquanto as praias continuam abertas

É só mergulhar e recolher as uvas mais doces

Esperando que o mosto fermente no olhar

E pisando o horizonte até à criação do verbo novo



Mas este Outono irá virar de repente

Varrido por um vento forte

Que cobrirá o chão com todas as cores do frio

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

COBERTOR DE ESTRELAS


Ao abrigo de um decreto-lei

Não devia haver nenhum sem-abrigo

Mas todos nós ficamos abandonados à intempérie

Dos espaços amplos e sem fim

Que se têm de percorrer de um lado para o outro

Sempre

Para estar a par das novas avenidas

Das novas super-novas que nos cobrem

O corpo de papel e de cartão molhado

Todas as palavras ficam frias

Quando cai o relento

terça-feira, 15 de setembro de 2009