quarta-feira, 2 de junho de 2010

A ÉTICA DAS MÁQUINAS DE CALCULAR

A leitura de Novalis deixa-me a cabeça fragmentada

É prático saltar por cima dos bancos e das mesas

E atirar o mundo para trás das costas

Como quem já se esqueceu de tudo

Ficando apenas com as dores musicais


Não vais

Ter outra oportunidade

Chegou a época das cerejas


O amor tem consequências singulares

E a guerra dos cem anos já matou a memoria


Mas as nozes e os poemas épicos

Provocam aftas nos ouvi
dos

Até houve um poeta romano chamado Ovídio

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Aqui estou de regresso com uma máxima:

NADA COMO NÃO FAZER NADA.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O ÁBACO DO SILÊNCIO

O futuro vai caindo no esquecimento

A verdade é que não consigo poisar os pés

Nem os olhos por muito tempo

Se o faço fico com dores na fechadura

Porque sou uma porta sem cadeados

Uma porta escancaradamente secreta

Que não leva a nenhum lado


O esquecimento é o vigor mais forte dos dias


Cada pé tem os seus terrenos falsos

E as suas areias movediças

Não conheço gesto mais vincado

Do que a mão quando está cansada

E deixa cair o lápis a espada e a rosa


Todos os fusos horários são lentos


Vou apagar as árvores

Que estão por trás dos castelos

Vou pedir a ajuda de um dragão

Já não tenho medo das rocas

Porque os dedos estão habituados

A acordar por si

Quando chegam ao fim da letra z

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A MÁQUINA DE DAR AO PEDAL

Vivo como se estivesse na costura
As letras são os meus alfinetes e agulhas

Que vou tirando do cantinho da boca

E alinhavando por aqui e por acolá

Passo as linhas brancas

Pelas casas esdrúxulas e abertas

Onde estou sozinha com os meus botões

Não dou silêncio sem nó

Porque com a tesoura corto a eito

Sílabas a mais do que a medida da bainha

No fim sobra sempre manga e pano

Para começar um outro verso

Com um novo e mais vistoso feitio


Sou uma costureirinha aplicada

As nuvens mais esfarrapadas

Caem-me do joelho até ao chão

No pescoço enrolo uma fita métrica

Com ela meço as coisas sem distância

E fico só com o tempo que cabe numa mão


Ponto corrido ponto concreto

Ponto de partida

Para o dedo que já está gretado

De tanto esquecer e perpassar


Faço um remendo no destino

E alargo a cintura dos lados

Hei-de fazer um vestido com flores

Nem que tenha rasgar o equador mais apertado

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PARA UMA VIDA CHEIA DE ENERGIA


De vez em quando é bom falhar…
Falhar em cheio e com grande estilo!

Falhar para não falar com as palavras trocadas,

Para não andar na ordem contrária do tempo

Para não cair de sono quando se olha para o Sol.


Também é bom faltar todos os dias

Aos dias que tantas vezes nos sobram,

Saltar pela janela sem fazer barulho

E fugir através das sombras hertzianas

Que rasam os muros mais sintonizados

Os muros que temos dentro dos ouvidos.


Às vezes é saudável ficar doente

Coxear das ideias, ter muitas dores nos bolsos

E poucas vitaminas na sola dos sapatos.


A vida é de morrer a rir,

Basta ver como os pássaros

Chocam com o céu sem se partirem...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

AS PORTAS DO CÉU

Se a natureza fosse irónica, daqui há poucos dias, a África e a América Latina poderiam vir a ser a única saída para os países ricos e civilizados do Norte.

Quão esquecidos andamos das nossas pequenas fragilidades.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TENHO DE APRENDER A CONTAR PELOS DEDOS

Com certeza não percebi bem, já baralho tudo, deve ser da idade. Não é possível acreditar que, com a mudança da escolaridade mínima, uma criancinha de 18 anos possa andar na primária. É absurdo! Igualmente disparatado é não se ensinar a tabuada em virtude de existir a máquina de calcular. Nesse caso, escolas para quê, se existe o Google?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

SONÂMBULOS DIURNOS

Há pessoas que perdem o sono
Não por serem esquecidas

Antes por estarem atentas demais

E levantam-se cedo para o procurar

Mas por muito que tentem não conseguem

Perguntam e põem anúncios

Só que ninguém sabe de nada

Ninguém viu nem ouviu nada

Mesmo quando se trata de um sono pesa


Há pessoas que perdem as mãos

Sempre que as guardam nos bolsos


Devia haver um sítio exacto para todas as coisas

Incluindo para as coisas que não mudam de lugar

Caso contrário muitos mares e montanhas

Poderão desaparecer dos mapas

Isso é tão certo como o eixo que espeta o mundo

E cujas pontas saem pelos dois pólos


Há sonos tão pesados

Que abrem o chão até ao seu íntimo

É por isso que quando as pessoas acordam

Caem num sono profundo

sexta-feira, 2 de abril de 2010

sábado, 27 de março de 2010

DA LÍNGUA PORTUGUESA

Hoje a minha palavra em português é habitat
E não sinto nenhum stress

Em escolher outras palavras assim com muitas nuances

Para fazer grafites nas paredes


Porque a saudade é geograficamente

A palavra mais estrangeira


O cão faz ão ão

Mesmo que seja um pastor alemão


Uma chave-inglesa é também uma coisa muito prática


De resto

As flores e as pedras não se manifestam


Basta sentir o perfume do mar e das giestas