Estrada toda aos esses, fazia algum tempo que não ia para aquelas paisagens. Lá continuam os rebanhos e os rochedos prodigiososamente esculpidos na parece ampla do céu. Regatos ainda sulcados pelas chuvas que já vão abrindo em flor. Depois, as sombras das árvores que começam a apetecer, que nos embalam num aconchego de sesta. Os sons mais escondidos acordam conforme os olhos se fecham e tudo é mais nítido quando a atenção vai ficando desfocada.
Mas é preciso regressar porque os dias são curtos.
Ao descer a avenida, Péricles interpelou-me sobre a democracia e a constituição. Em vão, argumentei que não passava de um simples funcionário público. Começou então a vociferar contra desleixo com que me apresentava. Não tive paciência para o ouvi e desandei. Uns passos mais adiante, o passeio estava vedado por fitas vermelhas porque os trabalhadores da câmara andavam a pintar um triângulo rectângulo para celebrar o dia mundial do teorema de Pitágoras. Resmunguei que era mais útil para as crianças jogarem à macaca ou à cabra-cega. Mas logo se levantou uma manifestação contra o método de Decartes. Encolhi os ombros e fui à vida.
A primeira vírgula é assaz necessária para não se confundir com a Av. Péricles.
Assaz é um vocábulo desagradável.
Podia iniciar-se uma lista de palavras não fazem falta nenhuma.
Há quanto tempo ando para falar da dificuldade das onomatopeias! Hoje, a talho de Funes, o assunto voltou-me à baila dos pensamentos. Como, ultimamente, tudo tem sido um vale verde ao luar, gostava de me redimir. Mas, dado que ando numa roda viva e não tenho mãos a medir, vou ter de aguardar que a procissão vá no adro, para que possa ter pano para mangas. Ufa.
Como o tempo passa cada vez mais depressa, lamentamos conforme vamos passando o tempo. Amanhã tudo há-de ser num instante. Mas haverá instantes que ficarão para sempre. Para além do esquecimento.