Uma máquina de lavar roupa é mais útil do que um poema.
Aliás, tudo é mais útil do que um poema.
Por exemplo, uma faca serve para cortar o pão,
um poema nem serve para cobrir o coração.
Além do gesto, não devia existir
outro tipo de comunicação.
Os peixes têm mais profundidade
do que a alma cansada dum poeta.
Os poetas são pesados,
têm mãos e lábios de morte.
Os poetas são achatados
como as mesas e os livros.
Devíamos ter ficado pela descoberta das pedras,
pelo cheiro húmido e geométrico da terra...
Mas passámos além do erro
e assim chegamos à angústia.
Os poetas deviam estar
debaixo duma malga, como os pirilampos.
Um poema é sempre uma coisa metálica,
é uma exclamação aguda e insuficiente,
uma maneira de transgredir e confrontar...
Um poeta é como um jogador
que atira a sua fala, até à raiz da dor.
Um poema é sempre inútil,
mas por ser inútil, é que é poema...
P.S.: O Funes é que tem razão.