No recato asseado dos domingos, ele apareceu a cambalear, vindo não se sabe de que outros obscuros quotidianos. Deixou-se cair no banco do jardim e apagou imediatamente, com a cabeça quase a tombar para o colo de uma velhota que, perplexa, não teve como reagir e continuou a tricotar o seu paninho de renda.
Sussurrou: Tem as mãos tão brancas, deve ter saído do seu turno de padeiro!
quinta-feira, 28 de maio de 2009
sexta-feira, 22 de maio de 2009
O tal testamento vital
Peço que me deixem viver até à última gotinha, mesmo que já nem possa levar a comida à boca ou não seja capaz de me deslocar daqui para ali.
Só não quero é gotas ou xarope para a tosse... que horror!
Irei chocar alguém com estas palavras? Esta dúvida, para mim, é que é assustadora.
Só não quero é gotas ou xarope para a tosse... que horror!
Irei chocar alguém com estas palavras? Esta dúvida, para mim, é que é assustadora.
domingo, 17 de maio de 2009
sexta-feira, 15 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
E sou teimosa
Dantes, por razões práticas, pensava que me daria jeito morrer nova. Como não morri, agora já não me apetece. Quero é durar (dura) toda a vida e mais seis meses...
terça-feira, 12 de maio de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Minhas lindas ervilhas de cheiro!
Às 4:56 acordei com a luz de um telemóvel a piscar. Impossível, pensei, não tenho destas bugigangas. Mas a coisa continuava lá, em cima da minha almofada, a fazer-me cócegas no nariz. Apesar do sono, tentei não me babar, pois tive receio de estragar um objecto que não me pertencia. A voz do Funes tranquilizou-me, explicando que os novos produtos de alta-tecnologia são resistentes à água. Que bom, respondi, assim Portugal já pode alargar a sua plantaforma continental e tal. Irritado, o jg, começou a insultar-me e a pôr e a tirar virgulas dos meus pensamentos. DEIXEM EM PAZ, gritei furiosa. Mas logo me arrependi. Afinal, era a Júlia Pinheiro a perguntar se eu ainda tinha beterrabas para espetar. Ia informá-la de que já só havia feijões de empa, mas a chamada caiu e eu voltei a adormecer.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Retalhos da vida...
Com a idade foi ficando tão surdo que agora só ouve coisas quando está a dormir.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
EVIDÊNCIA
Uma máquina de lavar roupa é mais útil do que um poema.
Aliás, tudo é mais útil do que um poema.
Por exemplo, uma faca serve para cortar o pão,
um poema nem serve para cobrir o coração.
Além do gesto, não devia existir
outro tipo de comunicação.
Os peixes têm mais profundidade
do que a alma cansada dum poeta.
Os poetas são pesados,
têm mãos e lábios de morte.
Os poetas são achatados
como as mesas e os livros.
Devíamos ter ficado pela descoberta das pedras,
pelo cheiro húmido e geométrico da terra...
Mas passámos além do erro
e assim chegamos à angústia.
Os poetas deviam estar
debaixo duma malga, como os pirilampos.
Um poema é sempre uma coisa metálica,
é uma exclamação aguda e insuficiente,
uma maneira de transgredir e confrontar...
Um poeta é como um jogador
que atira a sua fala, até à raiz da dor.
Um poema é sempre inútil,
mas por ser inútil, é que é poema...
P.S.: O Funes é que tem razão.
Aliás, tudo é mais útil do que um poema.
Por exemplo, uma faca serve para cortar o pão,
um poema nem serve para cobrir o coração.
Além do gesto, não devia existir
outro tipo de comunicação.
Os peixes têm mais profundidade
do que a alma cansada dum poeta.
Os poetas são pesados,
têm mãos e lábios de morte.
Os poetas são achatados
como as mesas e os livros.
Devíamos ter ficado pela descoberta das pedras,
pelo cheiro húmido e geométrico da terra...
Mas passámos além do erro
e assim chegamos à angústia.
Os poetas deviam estar
debaixo duma malga, como os pirilampos.
Um poema é sempre uma coisa metálica,
é uma exclamação aguda e insuficiente,
uma maneira de transgredir e confrontar...
Um poeta é como um jogador
que atira a sua fala, até à raiz da dor.
Um poema é sempre inútil,
mas por ser inútil, é que é poema...
P.S.: O Funes é que tem razão.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
A SOLIDÃO
Não consigo parar. Caminho de um lado para o outro, seguindo todas as indicações de saída. Mas todos os lugares de onde saio, vão dar a outros de onde também é preciso sair, por serem tão fechados como os anteriores. Uma vez entrei num desses estacionamentos subterrâneos que começava no piso zero, quer dizer, ao nível do solo. Depois a saída era feita sempre a descer -1, -2, -3… Parecia que estava a ir para o centro da Terra. Mas a verdade é que sem saber como, no piso -7 acabei por chegar outra vez à superfície. Encontrei a mesma estrada por onde havia entrado. Recursos da arquitectura moderna, pensei.
No entanto, o que se passa comigo é outra coisa bem diferente. É sentir que não consigo respirar. Que é o próprio céu que me oprime. Que, por mais largo que seja o horizonte, nunca me sinto à vontade. Quando vou pelas ruas, os prédios começam a apertar-se uns contra os outros e tenho de correr para não ficar com o corpo esmagado no meio deles. Outras vezes é a multidão que não me deixa passar. As pessoas fecham-se em meu redor como se não me quisessem deixar fugir.
Na verdade, ninguém repara em mim, e a minha presença passa sempre despercebida. Há alturas em que até duvido da minha realidade física. Não consigo encontrar a minha imagem reflectida em nenhum espelho. Nas vitrinas das lojas, vejo uma grande quantidade de gente e não me distingo no meio de todas aquelas figuras. Só me reconheço pelas roupas que trago vestidas: meus sinais exteriores de tristeza.
Há sempre uma porta fechada no meio do caminho por onde vou. É uma porta que está constantemente diante de mim. Para onde quer que eu vá, ela aparece. Tento arrombá-la, mas não tenho força. Já só me resta o cansaço de tanto caminhar. E caminho sempre em frente, apesar da porta que me impede a passagem. A porta está sempre lá, na minha frente. Mesmo que caminhe com toda a determinação, nunca a consigo alcançar, nunca consigo deixá-la para trás. É uma porta que, estando sempre na minha frente, me persegue como um cão. Por isso, olho constantemente para trás.
Mas não há nada atrás de mim. O mundo é um desenho ténue que se vai apagando à minha passagem. O mundo é um desenho que apenas se torna nítido de cada vez que dou um passo em frente. O mundo é uma rotunda por onde se pode seguir em todas as direcções. Só há um caminho para todas as direcções. Um caminho aberto e sem saída.
No entanto, o que se passa comigo é outra coisa bem diferente. É sentir que não consigo respirar. Que é o próprio céu que me oprime. Que, por mais largo que seja o horizonte, nunca me sinto à vontade. Quando vou pelas ruas, os prédios começam a apertar-se uns contra os outros e tenho de correr para não ficar com o corpo esmagado no meio deles. Outras vezes é a multidão que não me deixa passar. As pessoas fecham-se em meu redor como se não me quisessem deixar fugir.
Na verdade, ninguém repara em mim, e a minha presença passa sempre despercebida. Há alturas em que até duvido da minha realidade física. Não consigo encontrar a minha imagem reflectida em nenhum espelho. Nas vitrinas das lojas, vejo uma grande quantidade de gente e não me distingo no meio de todas aquelas figuras. Só me reconheço pelas roupas que trago vestidas: meus sinais exteriores de tristeza.
Há sempre uma porta fechada no meio do caminho por onde vou. É uma porta que está constantemente diante de mim. Para onde quer que eu vá, ela aparece. Tento arrombá-la, mas não tenho força. Já só me resta o cansaço de tanto caminhar. E caminho sempre em frente, apesar da porta que me impede a passagem. A porta está sempre lá, na minha frente. Mesmo que caminhe com toda a determinação, nunca a consigo alcançar, nunca consigo deixá-la para trás. É uma porta que, estando sempre na minha frente, me persegue como um cão. Por isso, olho constantemente para trás.
Mas não há nada atrás de mim. O mundo é um desenho ténue que se vai apagando à minha passagem. O mundo é um desenho que apenas se torna nítido de cada vez que dou um passo em frente. O mundo é uma rotunda por onde se pode seguir em todas as direcções. Só há um caminho para todas as direcções. Um caminho aberto e sem saída.
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