
Até na minha aldeola as portas e janelas têm de se manter trancadas em pleno dia e nem assim adianta, desconfia-se de quem não tem boa pinta, os cães bem se fartam de ladrar, mas os alarmes adiantam pouco quando são activados por nada, só ficam a fazer barulho durante muito tempo. Nem a Igreja escapa aos sinais dos tempos, fechada a sete chaves, lá está, virada para o vale do campo, é o sitio mais sossegado para ver o mergulhar do sol, embora suspeite que também seja um canto recatado para outros desesperos, quem sabe, agora já não há o conhecimento familiar até à quinta geração, já não há a cumplicidade dos vizinhos. Se alguém bate à porta é preciso todo o cuidado e só depois é que se recebe de regaço para regaço os primeiros cachos, os figos pingo de mel, tudo, numa troca recíproca de pessoas que sempre foram umas das outras, Amélia do Pereiro, Manuel do Gama, Quitas do Boiça. As noites deste Verão estão demasiado frias, ainda nem apeteceu ficar à janela e durmo porque está muito bom para dormir.


