terça-feira, 11 de agosto de 2009

Não era preciso tanto

Não há frio que não dê em Verão de abafar, até os peixes transpiram.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Luar de Agosto


Até na minha aldeola as portas e janelas têm de se manter trancadas em pleno dia e nem assim adianta, desconfia-se de quem não tem boa pinta, os cães bem se fartam de ladrar, mas os alarmes adiantam pouco quando são activados por nada, só ficam a fazer barulho durante muito tempo. Nem a Igreja escapa aos sinais dos tempos, fechada a sete chaves, lá está, virada para o vale do campo, é o sitio mais sossegado para ver o mergulhar do sol, embora suspeite que também seja um canto recatado para outros desesperos, quem sabe, agora já não há o conhecimento familiar até à quinta geração, já não há a cumplicidade dos vizinhos. Se alguém bate à porta é preciso todo o cuidado e só depois é que se recebe de regaço para regaço os primeiros cachos, os figos pingo de mel, tudo, numa troca recíproca de pessoas que sempre foram umas das outras, Amélia do Pereiro, Manuel do Gama, Quitas do Boiça. As noites deste Verão estão demasiado frias, ainda nem apeteceu ficar à janela e durmo porque está muito bom para dormir.

sábado, 1 de agosto de 2009

Poema visual

CHUVA OBLIQUA

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...




Fernando Pessoa

quinta-feira, 30 de julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

PERDIDOS NO UNIVERSO

Ser pessoa às 4:18 da tarde,
a Primavera já não cheira,
só os pinheiros das naus das sete partidas.

Neste instante exacto, o dedo no cronómetro,
a vida anda ao contrário
porque não é capaz de andar com os pés
nem sabe orientar a cabeça.

Por estas horas algum rei sem destino
mas com muitas nuvens nos ombros,
proclama uma liberdade assim-assim
mais ou menos em desequilíbrio
como vem nos livros de história.

Ser pássaro de um momento para o outro
trocando de mãos,
malabarista desastrado
que não pode agarrar no vento,
todas as ideias são bolas que se atiram para o ar.

Há um horário rigoroso que se tem de cumprir
logo que a porta é aberta,
logo que se lava a cara,
não adianta encolher os passos
porque toda a gente sabe onde se esconde o futuro
e em cada esquina somos apanhados de surpresa.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Um segundo de eternidade


Um grão de areia é tão leve. Dois grãos de areia contêm a mesma imperceptibilidade do que dez, cem, mil... Até que o “nada” que está sobre os ombros fica pesado, insuportavelmente pesado. E pensar que um único grão de areia é o elemento activo dessa transformação!

Eis o mistério, a gota que faz a tempestade.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

AO DISPOR




Assustador, quantas vezes voltaremos a ter um JG para nos lembrar das coisas importantes?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

QUANTAS POSSIBILIDADES!

A fidedignidade das aparências, só iludem os olhos viciados em ângulos rectos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Leitura para o Inverno


"Que é tetralo..." arrisquei.

"É a arte de cortar um cabelo em quatro. Esse departamento compreende o ensino das técnicas inúteis, por exemplo: a Avunculogratulação Mecânica ensina a construir máquinas para cumprimentar a tia. Estamos em dúvida se deixamos nesse departamento a Pilocatábase, que é a arte de escapar por um fio, e que não parece de todo inútil. Não acha?"

"Por favor, me digam primeiro o que é essa história..." implorei.

"É que Diotallevi, e eu próprio, estamos projetando uma reforma do saber. Uma Faculdade da Irrelevância Comparada, onde se estudam matérias inúteis ou impossíveis. A faculdade tende a reproduzir estudiosos em grau de aumentar ao infinito o número de matérias irrelevantes."
Umberto Eco
in
O Fêndulo de Foucault


Se este livro não me lembrasse tanto
“O Código da Vinci” teria sido capaz de o ler até ao fim...