terça-feira, 22 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
A AMEAÇA
Porque a frieza com que as pessoas lidam umas com as outras era insuportável, inclinou-se no parapeito da janela. Na redacção do jornal que se situava no 13.º andar, a azáfama era tanta que, só depois de uma hora e tal é algumas vozes se levantaram em protesto contra o vento gelado que até fazia voar os papéis.
Recolheu-se mas resmungou por entre dentes:
— Se não fosse ter comprado bilhete para os U2...
Recolheu-se mas resmungou por entre dentes:
— Se não fosse ter comprado bilhete para os U2...
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
CEGUEIRA
tricotado em linha âncora
as mãos sabem navegar
pelo desenho marcado com alfinetes
e fazem dois elefantes em dois lados reflexos
para pôr na janela
com a intenção de espantar o sol dos móveis
é quase por tacto que as mãos fazem e desfazem
pois os olhos já não acham mais imperfeições
nem mais erros nas medidas do universo
uma voz murmura — Que lindo é esse pássaro!
porque não percebe nada de elefantes
sábado, 28 de novembro de 2009
DO SILÊNCIO
já não há gatos suspensos nos telhados da Babilónia
só monte Fuji e Kodak
e do Evereste nem alpinistas a tiracolo
nem budistas em banhos turcos
que passam as horas a furar os ouvidos na sua meditação
talvez transcendental
talvez do Nepal
talvez sentados como pedras adormecidas
e nessa atitude descobrir o fundo das palavras sem fundo
num espelho
só monte Fuji e Kodak
e do Evereste nem alpinistas a tiracolo
nem budistas em banhos turcos
que passam as horas a furar os ouvidos na sua meditação
talvez transcendental
talvez do Nepal
talvez sentados como pedras adormecidas
e nessa atitude descobrir o fundo das palavras sem fundo
num espelho
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O BATER DAS HORAS
nas horas das sombras sobre as pálpebras
bate dentro de nós
com os seus nós de madeira
bate para afugentar o azar e o sono
São horas de abrir o vidro das colmeias
porque há uma consciência muito alimentada a pão
e a medo
Todas as culpas mordidas pelo mesmo dente
São horas de arrefecer os olhos
uma
duas
três
quatro e um quatro
Todos os músculos perdem a força
O pêndulo já não sabe se bate para trás ou para a frente
Na verdade, não existem nuvens silvestres
cinco
seis
noite e meia sem intervalos
Neste momento é preciso intervir a favor dos desertos
e dos prados
e dos moinhos
e dos monges do Tibete
e das águias reais
e dos segundos esquecidos
A fome dá sete badaladas na torre
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
NINGUÉM VIVE DE POEMAS
ninguém espirra sonhos pelo nariz
ninguém mata a sede com veneno
ninguém mata o tempo pela raiz
ninguém corta o rio com uma tesoura
ninguém encolhe a sombra do chão
ninguém cobre a cabeça com folhas de alface
ninguém agasalha os pés com teoremas
ninguém enfeita os olhos com canela
ninguém mexe o coração com colher de chã
ninguém suspeita da imparcialidade das moscas
ninguém limpa as suas culpas com algodão
ninguém desiste de sua sede nem da sua fome
ninguém atrasa o tempo com um pontapé
ninguém adianta as ideias por acontecer
ninguém vive sem rosto
ninguém morre sem deixar rasto
ninguém luta contra os seus próprios braços
ninguém começa a crescer pelos sapatos
ninguém se enche de ternura abrindo uma torneira
ninguém apaga o Sol com um sopro
ninguém fecha os olhos para deixar de pensar
ninguém pensa para perder quilos
ninguém escreve para evitar a diabetes
ninguém grita para fazer flores molhadas
ninguém bebe água para se tornar transparente
ninguém cala as suas artérias mais quentes
ninguém fica preso fora do seu corpo
ninguém adormece antes de adormecer
ninguém se liberta das suas próprias asas
ninguém cai do azul dos seus sonhos
ninguém sonha sem rede
domingo, 8 de novembro de 2009
QUANTOS CRUZEIROS E COLCHÕES ORTOPÉDICOS!
A minha mãe é mais velha do que eu, ainda assim, tenho de a proteger porque ela ainda tem medo da chuva, do vento, da trovoada...
Só se defende muito bem é ao telefone. Seja qual for a proposta ou oferta, responde que não precisa de nada porque já tem tudo. E desliga.
Só se defende muito bem é ao telefone. Seja qual for a proposta ou oferta, responde que não precisa de nada porque já tem tudo. E desliga.
sábado, 7 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
SONHOS ACANHADOS
Lembro-me do meu vizinho. Sapateiro duas vezes por ano, no máximo, porque o combate corpo a corpo e verbal que ele mantinha com os pregos, o martelo e o alicate era deveras extenuante. As ferramentas eram todas insultadas por demais, mas mesmo assim teimavam, ora caindo das mãos, ora ficavam escondidas dentro dos próprios bolsos ou debaixo dos pés.
— Ah danadas, vocês vão ver quem manda!
A luta era tão intensa que não podia ser prolongada por mais de dez minutos. Assim, umas meias solas só ficavam prontas ao fim de um mês e tal, para a impaciência dos fregueses que ainda reclamavam do preço alto e da obra mal feita.
O meu vizinho queria lá saber, dedicava a vida a uma causa para ele muito mais importante: O funcionamento dos serviços de correio. Assinava jornais diários e semanais só com o propósito de ver se a correspondência chegava à hora certa. Um atraso, por mais insignificante que fosse, dava logo mote para ele ir para a rua anunciar:
— Não hei-de morrer sem um posto dos correio aqui na terra.
E não. O dia em que um posto dos CTT abriu, apesar de provisório e sem nenhumas condições, o homem sentiu-se com certeza um herói.
Não me lembro é se morreu antes ou depois da grande, moderna e verdadeira estação que agora existe ser inaugurada. Algo com a qual nem ousou sonhar.
— Ah danadas, vocês vão ver quem manda!
A luta era tão intensa que não podia ser prolongada por mais de dez minutos. Assim, umas meias solas só ficavam prontas ao fim de um mês e tal, para a impaciência dos fregueses que ainda reclamavam do preço alto e da obra mal feita.
O meu vizinho queria lá saber, dedicava a vida a uma causa para ele muito mais importante: O funcionamento dos serviços de correio. Assinava jornais diários e semanais só com o propósito de ver se a correspondência chegava à hora certa. Um atraso, por mais insignificante que fosse, dava logo mote para ele ir para a rua anunciar:
— Não hei-de morrer sem um posto dos correio aqui na terra.
E não. O dia em que um posto dos CTT abriu, apesar de provisório e sem nenhumas condições, o homem sentiu-se com certeza um herói.
Não me lembro é se morreu antes ou depois da grande, moderna e verdadeira estação que agora existe ser inaugurada. Algo com a qual nem ousou sonhar.
sábado, 31 de outubro de 2009
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