Fez um X nas costas da mão para servir de aviso. Mas passou a tarde toda a tentar lembra-se daquilo que não se podia esquecer. À noite, esfregou com muito sabão para conseguir dormir.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
COMO ESCREVER UM GUIÃO
Apagou a televisão e foi dormir
No meio da noite descobriu que não tinha dedos
Apenas uma almofada cheia de diamantes
Por não poder voltar atrás na vida
Teve de andar com o filme para a frente
Até que o Sol nasceu e se viu a cabeça de um leão
Era o leão da Metro-Goldwyn-Mayer
Nessa altura apareceram nuvens altas
E o Sol desligou-se com um enorme rugido
Os braços espreguiçaram-se para puxar uma ideia
Mas o mundo ficou tão grande
Que a partir daquele instante seria difícil imaginar
Um argumento válido para continuar a viver
Um argumento que fosse credível e original
Ainda assim os lápis estavam todos afiados até ao limite
Por isso era complicado escolher outros desafios
Finalmente um cowboy entrou na história
E deu um tiro fulminante
Que deixou o ar impregnado de tanta pólvora
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
ESTA MESMO MUITO FRIO
Hei-de ficar velha sem perceber como é possível aturar um país onde existe algo que se designa de “escolaridade obrigatória”.
Os miúdos, sobretudo os mais crescidos, deviam ir para escola com a mesma vontade com que vão para uma noite de karaoke ou isso.
Os miúdos, sobretudo os mais crescidos, deviam ir para escola com a mesma vontade com que vão para uma noite de karaoke ou isso.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
NÃO ME FALTE PAPEL

o Sol duro desta idade
sem mãos
a cair para dentro
do Universo...
Não me falte a voz
para enumerar o caos
desta ordem desmedida...
Não me falte a inspiração
para o impossível
das coisas mais irrealizáveis,
nem para o absoluto desafio
dos meus gestos insubmissos...
Não me falte o balanço
para lançar no ar a ousadia
de estar presente
mesmo nos dias mais difíceis...
Não me falte a permanente dúvida
para saber verificar as minhas certezas...
Não me falte o tempo
para que eu possa faltar...
Não me falte o movimento
que me faz ir em busca desse nada
que está por toda a parte...
Não me falte a lucidez
com que forjo a loucura das palavras
coerentemente absurdas...
sábado, 26 de dezembro de 2009
* AMIZADE
Não sei explicar, mas seguramente faltam-me letras com palavras inteiras lá dentro e a cabeça fica muda porque tenta e insiste sem ser capaz de chegar a um alfa onde todas as emoções deveriam começar.
A de agradecer ate o ómega.
A de amizade plena num sistema binário completo, olhos nos olhos que já não têm de fingir nem esconder as lágrimas.
A minha maior verdade é o silêncio grande!
De A de todos os nomes que aguentam todas as minhas loucuras sem fugir.
À Z
A de agradecer ate o ómega.
A de amizade plena num sistema binário completo, olhos nos olhos que já não têm de fingir nem esconder as lágrimas.
A minha maior verdade é o silêncio grande!
De A de todos os nomes que aguentam todas as minhas loucuras sem fugir.
À Z
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
A AMEAÇA
Porque a frieza com que as pessoas lidam umas com as outras era insuportável, inclinou-se no parapeito da janela. Na redacção do jornal que se situava no 13.º andar, a azáfama era tanta que, só depois de uma hora e tal é algumas vozes se levantaram em protesto contra o vento gelado que até fazia voar os papéis.
Recolheu-se mas resmungou por entre dentes:
— Se não fosse ter comprado bilhete para os U2...
Recolheu-se mas resmungou por entre dentes:
— Se não fosse ter comprado bilhete para os U2...
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
CEGUEIRA
tricotado em linha âncora
as mãos sabem navegar
pelo desenho marcado com alfinetes
e fazem dois elefantes em dois lados reflexos
para pôr na janela
com a intenção de espantar o sol dos móveis
é quase por tacto que as mãos fazem e desfazem
pois os olhos já não acham mais imperfeições
nem mais erros nas medidas do universo
uma voz murmura — Que lindo é esse pássaro!
porque não percebe nada de elefantes
sábado, 28 de novembro de 2009
DO SILÊNCIO
já não há gatos suspensos nos telhados da Babilónia
só monte Fuji e Kodak
e do Evereste nem alpinistas a tiracolo
nem budistas em banhos turcos
que passam as horas a furar os ouvidos na sua meditação
talvez transcendental
talvez do Nepal
talvez sentados como pedras adormecidas
e nessa atitude descobrir o fundo das palavras sem fundo
num espelho
só monte Fuji e Kodak
e do Evereste nem alpinistas a tiracolo
nem budistas em banhos turcos
que passam as horas a furar os ouvidos na sua meditação
talvez transcendental
talvez do Nepal
talvez sentados como pedras adormecidas
e nessa atitude descobrir o fundo das palavras sem fundo
num espelho
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O BATER DAS HORAS
nas horas das sombras sobre as pálpebras
bate dentro de nós
com os seus nós de madeira
bate para afugentar o azar e o sono
São horas de abrir o vidro das colmeias
porque há uma consciência muito alimentada a pão
e a medo
Todas as culpas mordidas pelo mesmo dente
São horas de arrefecer os olhos
uma
duas
três
quatro e um quatro
Todos os músculos perdem a força
O pêndulo já não sabe se bate para trás ou para a frente
Na verdade, não existem nuvens silvestres
cinco
seis
noite e meia sem intervalos
Neste momento é preciso intervir a favor dos desertos
e dos prados
e dos moinhos
e dos monges do Tibete
e das águias reais
e dos segundos esquecidos
A fome dá sete badaladas na torre
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