quinta-feira, 15 de abril de 2010
TENHO DE APRENDER A CONTAR PELOS DEDOS
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
quarta-feira, 7 de abril de 2010
SONÂMBULOS DIURNOS
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
sexta-feira, 2 de abril de 2010
PÁSCOA
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
sábado, 27 de março de 2010
DA LÍNGUA PORTUGUESA
E não sinto nenhum stress
Em escolher outras palavras assim com muitas nuances
Para fazer grafites nas paredes
Porque a saudade é geograficamente
A palavra mais estrangeira
O cão faz ão ão
Mesmo que seja um pastor alemão
Uma chave-inglesa é também uma coisa muito prática
De resto
As flores e as pedras não se manifestam
Basta sentir o perfume do mar e das giestas
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
domingo, 21 de março de 2010
SEGURANÇA MÁXIMA
Ter a certeza de tantas coisas. O caracol demoraria um dia inteiro a trepar até ao cimo da parede. De meia em meia hora calcula-se a distância percorrida. Não há nada mais extravagante do que a prática do alpinismo. Mas todos os bichos, mesmo os rastejantes, são trepadores por natureza. Não existe uma técnica definida para calcular as distâncias. Existe apenas a certeza de que as sombras crescem à medida que o sol vai baixando no horizonte. As sombras acabam por ficar tão altas como as paredes e as montanhas. O caracol atrasa-se significativamente porque desconhece a fórmula da linha recta. E faz constantes desvios através da textura áspera do cimento. Na trajectória aparente do sol não há qualquer tipo de desvios. O olhar, também, é rectilíneo. O olhar não é aparente. É fixo. Observa com toda a atenção os movimentos ondulantes do caracol. É difícil calcular a distância exacta entre dois pontos. É necessário que os pensamentos formem uma cadeia lógica entre si. É necessário que todos os lugares estejam interligados. Escalar a vida da Terra ao céu. Numa órbita curva dos foguetões. A contagem é decrescente. E infinita.
Não ter a certeza de coisa alguma. As casas dividem-se em duas metades. De um lado, os números pares. Do outro, os números ímpares. Não há espaços livres por onde passar. Todas as paisagens estão atravancadas com fitas métricas e marcos geodésicos. Impossível galopar por cima das horas e dos contratempos. As torres de vigia, embora adormeçam com muita frequência, mantêm-se firmes nos seus postos de comando. Têm luzes que piscam com toda a urgência. Qualquer direcção para onde se tente ir tem de ser anunciada ao pormenor. Nada mais caótico do que as raízes que se multiplicam no interior de uma frente fria. Os ventos levantam-se em terríveis aspirais de fumo e de pó. Esse tráfego subterrâneo de naves espaciais. Nunca se chega a lado nenhum. Há atrasos em todos os embarques. As portas fecham-se. Um caminho cheio de fronteiras. As barreiras automáticas que sobem e descem conforme a apresentação de um registo fotográfico. Identidade perdida. Números primos. Todas as casas ao nível do mar. Paisagem dividida ao meio. Hemisfério diurno.
As ondas. Sim, as ondas. Ter a certeza de algumas coisas. E ignorar completamente tudo o resto. Ignorar os lugares de abrigo. Ir mesmo até à beira das falésias. Sentir os pés molhados. De repente, uma necessidade incontrolável de frutos maduros. As rochas cor de pêssego mesmo ali. E os caranguejos a serem repelidos pelas marés. Caranguejos que se escondem por entre as escarpas mais escorregadias. O tempo move-se numa sequência de retrocessos. É tão difícil acertar os passos com a rotação do mundo. É tão simples dar um salto para fora do muro. O mundo é um muro perfeitamente transponível. Basta acordar. E estar de acordo com os princípios básicos da física.
Nunca cair numa armadilha gramatical. E saber sempre onde estão as entradas de emergência.
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
sexta-feira, 12 de março de 2010
PAISAGEM SEM REGRESSO
Mesmo com as janelas fechadas
Não há como evitar o passar do tempo
A actividade das máquinas cósmicas
Os seus lábios metálicos abrem e fecham-se
Num pestanejar de cordas e roldanas
As novas obras multiplicam-se
E já não há mais céu para arranhar
Só futuros para distribuir
Só estradas para abrir à força
Dentro das nossas cabeças
Já não há mais árvores para navegar
Só um corpo antigo e em perigo de desmoronar
Seguro por estacas que aguentam os ombros e os joelhos
Muitas roupas vão ficar desalojadas
Muitos sapatos vão ficar sem alicerces
Caindo para dentro de um vento profundo
Sem respiração nem vontade para crescer
Para subir de andar em andar
Um corpo que de tão exausto vai ficar sem telhados
Vai desistir das suas portas mais urgentes
Das suas paredes mais íntimas e caladas
Um corpo que de tão alto vai precisar de uma grua
Para colocar a sua última palavra angular
Sobre as casas que vão voltar a nascer
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
quarta-feira, 3 de março de 2010
É SÓ PARA SABER
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
SEM OLHAR
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
domingo, 7 de fevereiro de 2010
RECEITUÁRIO
Às vezes não há por onde começar
Porque os dias não têm pontas
E a fita-cola fica colada aos dedos
Até ir parar à sola dos sapatos
Hoje em dia as roupas são muito cansadas
E ao mínimo desgosto enchem-se de borboto
Hoje em noite a pele é muito seca
E enche-se de borboletas prateadas
Quando a vida demora a começar
É preciso tocar às campainhas de todas as portas
É preciso pôr estacas nas árvores que estão tortas
É preciso tapar as casas que ficam rotas
É preciso rasgar as palavras que vão caindo mortas
Mas quando os dias vêm com demasiada antecedência
Só há uma solução:
Espirrar três vezes para desobstruir o coração
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
O ZERO INFINITO
Porque é preciso despachar os poemas num instantes
Antes que eles murchem e se partam pelas asas.
É preciso empurrar os olhos para a frente
Em direcção aos filhos que estão por abrir,
Para que eles atravessem de novo as pontes
Que estão agora a ruir pelo peso do nosso sono.
E as palavras todas a pingar pelas paredes abaixo
Como se fossem chuva disparada por canhões de guerra
Que não se podem render diante de um silêncio obrigatório.
É difícil abrir passagem por entre os pensamentos apertados,
Há instantes em que nem uma clave de sol
É capaz de entrar no buraco da partitura.
Ninguém pára porque os olhos estão sempre verdes
E os cruzamentos são lugares de velocidade máxima
Com as árvores e as girafas todas em contramão,
Os cruzamentos são esquinas redondas
Onde os polícias e os larápios atacam ao pôr-do-sol
Vestidos com as mesmas fardas e os mesmos apitos.
Já há não como distinguir as palavras umas das outras,
Todas as batalhas são geometricamente iguais,
Com as mesmas medidas e as mesmas sílabas tónicas.
Custa a acreditar, mas ninguém sabe a idade do tempo
E ainda que se façam múltiplas equações
Não se há-de encontrar o comprimento do futuro que falta
Porque tudo é eterno como a numeração romana.
Durmo profundamente porque é a minha única maneira de tornar o mundo num lugar um pouco mais suportável...
