sexta-feira, 16 de julho de 2010

EM TERRA FIRME

Para uma amiga com altas batidas


Estou sempre a perder-me nas coisas que penso

Deixo as palavras esquecidas pelos cantos

Até elas se encherem de bolor e de peneiras miudinhas

Daquelas que entram nos armários para comerem a roupa


Não tenho nenhuma táctica de navegação

Por isso respiro com os olhos fechados

E deixo que o tempo me puxe pelos pés

Fazendo-me crescer ao contrário


Sinto-me crescida desde que comecei a brincar

E a fazer desenhos com o coração


Sei que há estrelas minúsculas por onde posso fugir

Mas decidi ficar até que as formigas se fartem de mim


Já aguento qualquer pedra ou negação

Porque agora só vou pela minha consciência

Contra todos os passos que limitam a liberdade


Perco-me dentro das coisas que penso

Mas insisto e encontro sempre uma saída

Esta é a minha voz

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ÚLTIMA HORA

As cadeiras quando adormecem

Deixam cair a cabeça


Por vezes os braços também caem


É nessa altura que o corpo acorda


E num sobressalto põe-se em pé


Porque está na hora das notícias

quinta-feira, 24 de junho de 2010

TELHADOS DE PAPEL

As coisas mais práticas quase nunca estão à mão

Nuvens, caminhos, ideias, caixas, árvores...

Sempre na última estante de cima

Ou num desvio entre o mar e a garganta


É difícil estar só

Porque a porta bate muito mais que o coração

E os olhos vivem numa correria enquanto dormem


Não há como segurar o vento

segunda-feira, 14 de junho de 2010

UM SOL PARA TRAZER NO BOLSO

Uma pessoa com paciência
Poderia construir um mar em miniatura

Teria apenas de gastar muitos fósforos


As conchinhas de mar

Só servem para outras filosofias


O abominável homem das neves

É todo feito de peugadas

E de testemunhos oculares


Por isso

Nada mais confortável para uma montanha

Do que crescer dentro duma garrafa

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A ÉTICA DAS MÁQUINAS DE CALCULAR

A leitura de Novalis deixa-me a cabeça fragmentada

É prático saltar por cima dos bancos e das mesas

E atirar o mundo para trás das costas

Como quem já se esqueceu de tudo

Ficando apenas com as dores musicais


Não vais

Ter outra oportunidade

Chegou a época das cerejas


O amor tem consequências singulares

E a guerra dos cem anos já matou a memoria


Mas as nozes e os poemas épicos

Provocam aftas nos ouvi
dos

Até houve um poeta romano chamado Ovídio

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Aqui estou de regresso com uma máxima:

NADA COMO NÃO FAZER NADA.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O ÁBACO DO SILÊNCIO

O futuro vai caindo no esquecimento

A verdade é que não consigo poisar os pés

Nem os olhos por muito tempo

Se o faço fico com dores na fechadura

Porque sou uma porta sem cadeados

Uma porta escancaradamente secreta

Que não leva a nenhum lado


O esquecimento é o vigor mais forte dos dias


Cada pé tem os seus terrenos falsos

E as suas areias movediças

Não conheço gesto mais vincado

Do que a mão quando está cansada

E deixa cair o lápis a espada e a rosa


Todos os fusos horários são lentos


Vou apagar as árvores

Que estão por trás dos castelos

Vou pedir a ajuda de um dragão

Já não tenho medo das rocas

Porque os dedos estão habituados

A acordar por si

Quando chegam ao fim da letra z

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A MÁQUINA DE DAR AO PEDAL

Vivo como se estivesse na costura
As letras são os meus alfinetes e agulhas
Que vou tirando do cantinho da boca
E alinhavando por aqui e por acolá
Passo as linhas brancas
Pelas casas esdrúxulas e abertas
Onde estou sozinha com os meus botões
Não dou silêncio sem nó
Porque com a tesoura corto a eito
Sílabas a mais do que a medida da bainha
No fim sobra sempre manga e pano
Para começar um outro verso
Com um novo e mais vistoso feitio

Sou uma costureirinha aplicada
As nuvens mais esfarrapadas
Caem-me do joelho até ao chão
No pescoço enrolo uma fita métrica
Com ela meço as coisas sem distância
E fico só com o tempo que cabe numa mão

Ponto corrido ponto concreto
Ponto de partida
Para o dedo que já está gretado
De tanto esquecer e perpassar

Faço um remendo no destino
E alargo a cintura dos lados
Vou fazer um vestido com flores
Nem que tenha de rasgar o equador mais apertado

quarta-feira, 21 de abril de 2010

PARA UMA VIDA CHEIA DE ENERGIA


De vez em quando é bom falhar…
Falhar em cheio e com grande estilo!

Falhar para não falar com as palavras trocadas,

Para não andar na ordem contrária do tempo

Para não cair de sono quando se olha para o Sol.


Também é bom faltar todos os dias

Aos dias que tantas vezes nos sobram,

Saltar pela janela sem fazer barulho

E fugir através das sombras hertzianas

Que rasam os muros mais sintonizados

Os muros que temos dentro dos ouvidos.


Às vezes é saudável ficar doente

Coxear das ideias, ter muitas dores nos bolsos

E poucas vitaminas na sola dos sapatos.


A vida é de morrer a rir,

Basta ver como os pássaros

Chocam com o céu sem se partirem...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

AS PORTAS DO CÉU

Se a natureza fosse irónica, daqui há poucos dias, a África e a América Latina poderiam vir a ser a única saída para os países ricos e civilizados do Norte.

Quão esquecidos andamos das nossas pequenas fragilidades.