quarta-feira, 23 de setembro de 2015

GOMOS DE OUTONO

Cathleen Rehfeld



As laranjas encolhem na ponta do lápis
Puxo pelo elástico do nariz
Mas o espirro não me sai
Só uma gota de sumo azul fluorescente
E a pupila grossa
Anda de cá para lá
Horizontalmente
Porque tenho a bainha dos dedos caída
Tudo é tão verdade quanto energia
Quanto as minhas moléculas rotas
Arregaço as mangas para não chorar mais
As laranjas são ácidas porque são de mim
Um fruto roubado às tardes

Hoje tenho palavras leves e apetece-me maracujás


terça-feira, 25 de agosto de 2015

AMANHECER DE CREPÚSCULOS

 
Martí Moreno

Já não passo nessa estrada desde ontem
Hoje é o lugar mais distante que existe
Porque não existe
Nem tem que existir
E o amanhã é só uma véspera adiada
De um futuro esquecimento

Todos os rostos se perdem
Não há olhar que fixe o olhar

Só há um agora frente à frente

sexta-feira, 31 de julho de 2015

DESTROÇOS DE LUZ

Paige Bradley


Anda cá poema, tenho de te agarrar
nem que seja a viva força
pelos cabelos ou pela língua,
tenho de te fazer falar
quero que digas tudo por mim
que me expliques o que não sei...

Vá lá, solta-te, não sejas esquivo,
dou-te papel e o meu ouvido
não te ponhas é com lamentos
para isso já me basto
preciso é de outras armas
de uma imagem bem afiada
própria para arremessar contra a luz
que me anda por aqui
dentro desta pedra destroçada.

Poema vem à deriva
quero-te afogar por inteiro
para que entres por um olho
e saias na porta furiosa do mar.

Não me dês tréguas nem compassos,
que o teu rumor não me deixe sufocar.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

REGRESSO AOS DIAS SEM VOLTA


Gürbüz Doğan Ekşioğlu


Mais vale fazer contas à vida
Do que uma vida faz de conta

A partir do zero tudo é infinito

Já morri nos olhos de tanta gente
E mesmo assim continuo a sentir
O sabor doce das laranjas

Se pudesse só estar aqui

Como quem viaja por inteiro!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PANINHOS QUENTES



Quando era cicatriz tinha pele
Quando era buraco tinha fundo
Quando era pedra tinha lágrimas
Quando era tristeza tinha bolos
Quando era impaciência tinha céu
Quando era medo tinha casa
Quando era tédio tinha tias
Quando era frágil tinha sofás
Quando era mimo tinha flores

Veio a morte quando ainda era pequena

Agora já sei
A minha vida foi os dias que adiei