Um gato rouba o meu pensamento
E foge com ele na boca.
Atiro-lhe pedras, mas ele não pára
Assusta-se e salta por cima do muro.
E agora? Penso eu sem pensamento…
Um gato rouba o meu pensamento
E foge com ele na boca.
Atiro-lhe pedras, mas ele não pára
Assusta-se e salta por cima do muro.
E agora? Penso eu sem pensamento…
No âmago do que é humano
Cravou-se o punhal mais tresloucado
Malditas as trevas das nossas mãos
Do viver nosso que a cada dia se desfaz
Desanda para trás a roda da história
O tempo futuro foge-nos dos pés
Estamos agrilhoados até à alma
Somos escravos outra vez subjugados
Arrastamos pesados medos e ódios
Olho por olho no ranger dos dentes
Só ficamos a salvo sempre que viramos costas
Quando nos escondemos no escuro
Das sombras que mais nos envergonham
A gorda matança dos inocentes
Ah como nos repugna tanto
À hora de engolir para adormecer
no fundo da Lua
encontro um poço
no fundo do poço
escavo um buraco
no fundo do buraco
escondo um barco
que suavemente se vai afundando
na forte rebentação do olhar
"Sob as palavras de pedra,
num genocídio de ideias rombas,
chagas no verde e vermelho abertas,
morreu o tempo da verdade comprovada.
É a Idade das Nuvens, premeditada,
martelando no engano das sombras,
que distorce a luz e nos derrota
por maltratados ouvidos e olhos.
A vozearia falida, comungada
por todas as línguas confusas,
qual pedra estéril de gente sem estrela,
ilumina o pior e escurece a vontade.
Levanta-te, ó Pátria minha!
Mais alto que o choro de pedra
e que a nuvem teimosa em ficar,
há um céu de integridade à tua espera."Vou abrir o céu para que as flores possam cair
Vou semear rios largos onde os sonhos naveguem
Vou agasalhar o silêncio com a minha voz
Para que o vento nunca se separe do pássaro
Pois que todo o corpo é leve
E o poema flutua além das coisas que são vazias
Não sei abraçar sem morrer
O vento tem ombros largos
Nada me agasalha o peito
Estou despida de tanto voar
De tanto devorar o céu
Não tenho força para poisar
Não sei morrer em bicos dos pés
Por isso quero um punhal pequenino
Para que o meu coração possa crescer
Além da fresta por onde espreita
Não sei respirar sem tossir
O beijo é fumo a sair pela boca
Nos olhos talvez uma carícia
Filigrana de arame fininho
As asas do meu voo fecham-se
Sobre o peito
À segunda-feira, após o primeiro dia, Deus acordou...
Bocejou e espreguiçou-se durante uma eternidade.
Terá resmungado com os seus botões
Sobre o ainda ter uma semana inteira pela frente
Antes de poder contemplar a sua criação.
Tudo era bom.
Mesmo tendo feito os céus e a terra de uma assentada,
Tudo era bom
Porque para Deus não há impossíveis.
“- Não há impossíveis?”
Interpelou-se, um tanto inquieto.
Ao sétimo dia descansou,
Mas nunca mais conseguiu conciliar o sono.
Gente que passa de um lado para o outro
E volta a passar
Gente que escolhe a roupa
Gente que encolhe a barriga
Gente que olha para os preços
E fica com os sonhos reduzidos
Já não há como voltar a nascer
os braços esticaram tanto
que não cabem nos buracos das árvores
agora é impossível vestir o mundo pela cabeça
e os sapatos ficam apertados no meio do caminho
A vida vai secando pelo pé
Porque não há água para tanta fome
Há pessoas nascediças e que vingam
são elas as desenham as plantas das cidades
as que enchem o mundo com cartazes
as que navegam pelas avenidas
empurrando o tempo para a frente
Às vezes algumas pessoas voltam atrás
Sem conseguirem encontrar os próprios passos
apenas uma moeda caída no chão
tão pequena
que mesmo que não dê para nada
dá para tudo
O tempo é um mergulho
Por entre vagas altas e vigorosas
Vimos à superfície breve
Apenas por urgência dos pulmões
Mas em cada novo fôlego
Afoga-se sempre o mesmo mar
A mesma lua naufragada
Antigos futuros
Raspam do barco todas as escamas
E os dias que ainda não lembramos
Hão de abrir a barriga do mundo
Até arrancar do fundo do poema
As redes ainda por lavrar
Ao mar se devolve o voo da lua
Dava-me jeito morrer com jeitinho
Em adormecido segredo
Só com as formigas mais miudinhas
Todas em compasso de oração
Carregada em ombros
Levar-me-iam a enterrar
Debaixo de um grão de areia