terça-feira, 26 de outubro de 2010

CARTOGRAFIA

Apago as linhas do mapa

Ponho as montanhas ao nível da régua
Levanto o mar até afogar os olhos dos pássaros
Até inundar todos os centímetros do universo

Mas tudo é intenso e clandestino
E não há nenhum lugar para as águas
Nem mesmo para as mais secretas

É preciso voltar ao princípio das descobertas
Desta vez com  melhor vontade
Guardando o futuro numa caixa bem aberta

Ir até onde a voz acaba e o céu começa

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

SINAIS DE FUMO

 
A locomotiva fuma a terra até aos ossos,
vai acelerada e negra
girando em volta dum poço aberto
preste a descarrilar das calhas do sentimento,
preste a engolir o fogo do universo.

A locomotiva arde na luz do horizonte,
tudo é mar e o seu inverso,
lucidez negativa
a boca altiva, fornalha de futuro.

Pouca vida, pouca vida…
Gosto do teu sabor a ferro,
Gosto do teu saber a excesso.

Velocidade apagada,
nunca alcanço o que penso
porque vivo nas curvas do infinito.

Dentro da fala arde a lenha
desta pressa
desta viagem acesa.

A locomotiva entra no túnel da garganta
para gritar o nó mudo
do mundo cego.

Tudo é mar e o seu regresso.

Pouca água, pouca água…
Quero chegar
Quero viver fundo, até aos ossos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Era uma vez uma chávena de chá que tinha graves 
problemas de consciência, mas que mesmo assim 
gostava de se mostrar trasbordante de sabedoria. 
Até que um dia caiu no chão e partiu uma asa. 

Era uma vez uma caneta que se preparava para 
assumir a plenitude da sua idade, quando de repente 
ficou sem tinta. 

Era uma vez uma estrela polar que apesar da sua 
carência afectiva, se esforçava por permanecer 
no mais absoluto segredo profissional. 

Era uma vez uma linda bicicleta de montanha que 
sofria de graves problemas de coluna, até quando 
o percurso era a descer. Por isso não teve outra 
solução do que parar e dedicar-se à escrita. 

Era uma vez um rico relógio de prata que vivia num 
magnífico palácio onde exercia o honroso cargo de 
guia turístico. Até que um dia foi declarado relíquia 
arquitectónica e não conseguindo suportar tal desgosto, 
deu em beber mesmo sabendo que não era à prova de água. 

Era uma vez uma mesa rectangular que por falta 
de verbas, teve de optar por ficar calada, apesar 
da sua potencialidade para mesa redonda. 

Era uma vez um advogado de defesa que se partiu 
e não voltou a ser recuperado pois não valia a pena tal 
investimento, tanto mais num período de tão grande 
contenção económica. 

Era uma vez um girassol com cara de poucos amigos 
que costumava estar virado para a parede e só se 

mostrava em dias de grande solenidade ou 
quando não avistava nenhum turista por perto. 

Era uma vez uma linha recta que ficou interrompida 
temporariamente para beneficiação mas que apesar 
desse contratempo, continuou a sua árdua luta 
pelos direitos humanos. 

Era uma vez um número primo que recebeu 
uma condecoração pelos actos praticados 
em prol do progresso científico e tecnológico. 
Como grande filantropo que era, mostrava-se 
sempre de cabeça baixa em sinal de submissão. 

Era uma vez uma máquina de escrever 
que se avariou mesmo a tempo de evitar 
que fosse cometido um acto de desespero. 

Era uma vez uma tarde que ficou bloqueada 
numa compacta fila de trânsito e não chegou 
a tempo de assistir ao pôr do Sol. 

Era uma vez uma ideia que falhou 
devido a um corte de energia. 

Era uma vez uma lâmpada 
que se apagou por falta de amor. 

Era uma vez um salto olímpico 
que tinha por objectivo a felicidade. 

Era uma vez uma chávena sem asa 
que não sabia que fazer da sua vida. 

Era uma vez uma vida que ficou esquecida 
na prateleira porque não havia mais espaço 
para o seu coração. 

Era uma vez uma caixa completamente vazia 
e sem histórias para contar. 

Era uma vez um mundo que por falta de imaginação 
ficou redondo como um pássaro.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

TUDO A CINCO EUROS E ANTES QUE A POLÍCIA CHEGUE

Sobre a expulsão dos ciganos da França, tudo já foi dito com magistral lucidez no post do Funes. Apenas me atrevo a acrescentar uns pequeníssimos detalhes, pensamentos que me vão surgindo nos intervalos do meu bem dormir.

É um alívio viver num país tolerante como Portugal, deste território nacional nenhum cigano será mandado embora. O máximo que pode acontecer a essa gente é ser enxotada de junto da nossa vizinhança, aldeia, vila, cidade ou distrito. Se se mantiverem à légua, os ciganos são fixes. Até dão muito jeito para fazer com que as crianças comam a sopinha toda.

Além disso, a quem compraríamos a melhor roupa e sapatinhas de marca? São mesmo úteis quando moram debaixo da ponte e vendem tudo ao preço da chuva. Mas também, com o rendimento mínimo que recebem, têm o dever de nos prestar alguns favores, ou não?

Ah pois...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

OS ABRUNHOS

apresento queixa contra este açúcar veemente
contra estas abelhas azuis que picam os abrunhos

contra esta idade aberta ao ritmo do galope

contra o precipício que aparece sem aviso

caindo para dentro de outro céu, de outro grito


as cadeiras morrem e sonham e bocejam

e batem o pé

e partem-se porque estão derreadas de tanto sol

porque queimaram os braços com tanto mel

porque já não podem com tanta eternidade


não sei como as árvores não se desfazem no chão

talvez a única técnica de sobrevivência seja a morte

talvez o próprio sol precise de raízes para não apodrecer

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SABERES


Ir à escola para quê? Lê a sina como ninguém, fluentemente, e em todos os idiomas.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

PETIÇÃO PARA ACABAR COM O MÊS DE AGOSTO


Agosto é o pior mês para férias.
Ir à praia em Agosto é de doidos.
Em Agosto o trânsito assusta.
Casamentos e baptizados em Agosto deviam ser proibidos.
Blogar, neste mês, é escrever pró boneco. Nem o Privada cá anda.

Bom, bom mesmo, só o luar. E a fruta da época.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

POEMA FULMINANTE

É possível ter um ataque súbito de vida
Desses que não têm origem conhecida

E que causam grande consternação

Desta idade… quem diria


Estamos todos sujeitos a nascer de um momento para o outro

Basta bater com a cabeça numa flor

Ou deixar entrar uma formiga miudinha para o peito


Ninguém escapa

Quer se escreva em texto corrido ou entre aspas


Nasce-se com um sorriso crónico

Que não há como o curar

Nem mesmo praticando muita ginástica interplanetária


Além do sorriso

Há outros perigos igualmente alegres

Fatalmente alegres


Não há remédio, nada mata a vida!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

EM TERRA FIRME

Para uma amiga com altas batidas


Estou sempre a perder-me nas coisas que penso

Deixo as palavras esquecidas pelos cantos

Até elas se encherem de bolor e de peneiras miudinhas

Daquelas que entram nos armários para comerem a roupa


Não tenho nenhuma táctica de navegação

Por isso respiro com os olhos fechados

E deixo que o tempo me puxe pelos pés

Fazendo-me crescer ao contrário


Sinto-me crescida desde que comecei a brincar

E a fazer desenhos com o coração


Sei que há estrelas minúsculas por onde posso fugir

Mas decidi ficar até que as formigas se fartem de mim


Já aguento qualquer pedra ou negação

Porque agora só vou pela minha consciência

Contra todos os passos que limitam a liberdade


Perco-me dentro das coisas que penso

Mas insisto e encontro sempre uma saída

Esta é a minha voz

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ÚLTIMA HORA

As cadeiras quando adormecem

Deixam cair a cabeça


Por vezes os braços também caem


É nessa altura que o corpo acorda


E num sobressalto põe-se em pé


Porque está na hora das notícias