segunda-feira, 10 de novembro de 2014

REMÉDIO PARA OS JOELHOS


A vida continua
É de comum acordo que a vida continua
Oficialmente viva
Mais viva até do que um papel timbrado

A vida continua tão efémera quanto
O murmurar das pedras

O Inverno mantém-se conforme a geografia
Da sístole e da diástole
E o um pêndulo ainda é perpétuo

Basta abrir e fechar os olhos
Como fazem os peixes
A vida continua
À mínima dor nos espelhos



quarta-feira, 11 de junho de 2014

A GRANDEZA E A VONTADE


Fiz 50 anos em Março  e, por coincidência, recebi como presente, o futuro!  

No dia do pai, abriu-se a porta da minha casa nova, aquela que, nem em sonhos, teria conseguido inventar. 
O que tem este meu novo lar de tão fabuloso? Tudo! Imagine-se que é tão grande, que só se completa, ao ser habitada por muitas famílias. País e filhos juntos, para que nem a vida os possa separar. Imagine-se também que, ao entrar nesta casa, todos os meus medos acumulados ao longo dos anos, desapareceram.
Tenho paralisia cerebral, sou deficiente profunda, completamente dependente da ajuda de terceiros. Até há pouco tempo, os meus país foram os meus únicos cuidadores. Fizeram-no com toda a abnegação. Mas neste desvelo, havia a aflição de não saberem o que me aconteceria quando eles me faltassem. Surgiu então uma pequeníssima luz ao fundo do túnel, mas tão ténue, que parecia miragem. Infelizmente os meus país não tiverem oportunidade de descobrir que, mais forte do que a utopia dos deuses, é a vontade dos homens.
O Lar Integrado Dr. José Mendes de Barros, da APCC, nasceu dessa vontade. Surgiu da premência de dar resposta às famílias que, como a minha, não encontravam nenhuma tábua de salvação. O destino dos seus filhos ficava muito à mercê da incerteza, do medo e da angústia.
Agora, mais do que um suspiro de alívio, existe o poder viver ao máximo o dia de hoje, esperando com entusiasmo todos os dias que hão de vir.

Está Obra tem a amplitude de um horizonte infinito. Em cada pôr-do-sol, acontece uma apoteose mágica, na qual se fortalece os laços das famílias que ainda têm a felicidade de permanecerem unidas, e daquelas que já fizeram uma aliança com a Eternidade.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CINEMA MUDO

A memória é silenciosa
Como os passos de um ladrão

A memória esconde-se
Em palavras a perto e branco

Lenta
Com os movimentos descoordenados
Culpada
Em cada um dos seus golpes de punhal
Frívola
Na sua maneira de não ser
E de nem acordar

Sempre
Um peso sobre os ombros
De uma memória tão inteira

Que a cada dia se apaga



10 de Novembro de 2011

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013



Todos os anos a minha mãe: “Enquanto puder, faço sempre o Presépio...”
- Mas a cabana do menino Jesus já está tão torta... e o espelho do lago podia mudar de sítio... e o São José partiu pelo pescoço...  - refilava eu, só por gostar de refilar.

Este é o terceiro ano que a minha mãe vai passar sem fazer o Presépio.

sábado, 23 de março de 2013

OS DIAS OCULTOS

Henri Valensi


Por não querer repetir os mesmos erros
É que erro
Ao repetir sempre as mesmas palavras

E mais uma pedra na ponta da fisga
Mas não tiro a mão detrás das costas
Isso não
Os pássaros que se danem
Ou que morram de frio

Eu aguento-me sem penas
E com o pescoço nu

Não tenho como agasalhar os olhos
Nem posso esconder os espirros
Que me saem da alma

Esfrego o nariz para evitar a chuva
Já tenho os dedos tortos e a pele seca
Penso que isso são coisas da idade
Mas também penso no esquecimento
Que faz mal e provoca aftas na cabeça

Se não estou com cabeça para nada
Rebusco em todas as caixas
Até encontrar um gato ou um papel
As moedas e os rebuçados também fazem jeito
Para afastar as moscas ou as trovoadas

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A BOCA DO CORAÇÃO

Teresa G.

Já quase nada me acorda.
Mas juro que não sonhei
Quando vi o avião a voar para trás.
Aconteceu isso várias vezes,
Durante algumas tardes consecutivas.
Ainda tentei partilhar a minha visão
E apontava com o dedo: Ali, ali...

Depois aconteceu a morte, a minha primeira morte.

Não sei o que me aperta a alma, o pescoço, as paredes...
Estou surda e só a chuva me alivia, é como um beijo.

Bebo café para não acordar enquanto durmo.
Poderia haver um violino que tocasse para trás.

Eu sei, para trás não há dias
Porque o relógio continua
Mais ou menos nas quatro menos um quatro.
Tudo sem corda e sem funcionar:
A casa, o jardim, o quintal...

Não sei quanto metros quadrados tem um hectare
Passo demasiado horas na cama e no facebook
Também jogo muito, muito, muito... mas sem vontade.

Às vezes escrever é a coisa mais fácil,
Outras vezes tenho de aceitar
O pão, o vinagre e os espinhos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

MÚSICA SALGADA


Pela boca morrem os poetas.
Autofágicos de si,
Engolem-se com um impulso asfixiado de nicotina,
Ferem-se com as escamas das próprias palavras.

E as palavras caem, uma a uma,
Gota a gota, na página agonizante do tempo.

Ai poetas, poetas...
Que na pele seca dos vossos corações
Seja rasgado o sopro de uma harpa
Que, rugindo alto, nas goelas do vento,
Passe por entre as rochas mais ásperas,
Mais pesadas de labirínticas tatuagens...

Mas seja aí, nessa pétrea nudez
Que as azáleas mais etéreas se libertem.

Que nada vos impeça nem do sangue nem da fala,
Respirem fundo até depurar completamente
O vício afiado dos vossos olhos taciturnos
Que de tanto vaguear, perdem o mapa secreto das ruas.

Pela loucura se substanciam os poetas.
Autóctones de si,
Procuram-se por dentro,
Afogando-se no tumulto torácico
Em que um diafragma de guelras se agita
Num bater de ondas e de pensar.