segunda-feira, 29 de maio de 2023

PÁSSARO PERFEITO

Não sei abraçar sem morrer

O vento tem ombros largos

Nada me agasalha o peito

Estou despida de tanto voar

De tanto devorar o céu 

Não tenho força para poisar


Não sei morrer em bicos dos pés

Por isso quero um punhal pequenino

Para que o meu coração possa crescer

Além da fresta por onde espreita


Não sei respirar sem tossir

O beijo é fumo a sair pela boca

Nos olhos talvez uma carícia

Filigrana de arame fininho


As asas do meu voo fecham-se

Sobre o peito


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

DÚVIDAS INVISÍVEIS

À segunda-feira, após o primeiro dia, Deus acordou...

Bocejou e espreguiçou-se durante uma eternidade. 

Terá resmungado com os seus botões

Sobre o ainda ter uma semana inteira pela frente

Antes de poder contemplar a sua criação.


Tudo era bom. 


Mesmo tendo feito os céus e a terra de uma assentada,

Tudo era bom

Porque para Deus não há impossíveis.


“- Não há impossíveis?”

Interpelou-se, um tanto inquieto.


Ao sétimo dia descansou,

Mas nunca mais conseguiu conciliar o sono. 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

PÉ DE VENTO

Gente que passa de um lado para o outro

E volta a passar

Gente que escolhe a roupa

Gente que encolhe a barriga

Gente que olha para os preços 

E fica com os sonhos reduzidos 


Já não há como voltar a nascer

os braços esticaram tanto

que não cabem nos buracos das árvores

agora é impossível vestir o mundo pela cabeça

e os sapatos ficam apertados no meio do caminho


A vida vai secando pelo pé

Porque não há água para tanta fome


Há pessoas nascediças e que vingam

são elas as desenham as plantas das cidades

as que enchem o mundo com cartazes

as que navegam pelas avenidas

empurrando o tempo para a frente


Às vezes algumas pessoas voltam atrás

Sem conseguirem encontrar os próprios passos


apenas uma moeda caída no chão

tão pequena

que mesmo que não dê para nada

dá para tudo


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

DOS PÍNCAROS DO TEMPO

O tempo é um mergulho 

Por entre vagas altas e vigorosas

Vimos à superfície breve

Apenas por urgência dos pulmões 

Mas em cada novo fôlego 

Afoga-se sempre o mesmo mar

A mesma lua naufragada


Antigos futuros 

Raspam do barco todas as escamas

E os dias que ainda não lembramos

Hão de abrir a barriga do mundo

Até arrancar do fundo do poema 

As redes ainda por lavrar


Ao mar se devolve o voo da lua 


quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O CAIR DA FOLHA

Dava-me jeito morrer com jeitinho

Em adormecido segredo 

Só com as formigas mais miudinhas

Todas em compasso de oração 

Carregada em ombros

Levar-me-iam a enterrar

Debaixo de um grão de areia


sábado, 22 de outubro de 2022

AO ENCONTRO DO NADA

Cada vez mais distante do meu próximo,

incapaz para a vida prática

e lenta na aquisição de ideias eficazes,

aqui estou, em abstractas miragens

sem saber o que é o mundo…

cega para tudo quanto é real

e confusa até nas coisas mais óbvias.


Do meu próximo que posso eu saber

se nada sei de mim,

que humanidade é esta que começa pelo fim?


Ao meu lado, uma cadeira,

como a distinguir do meu próximo?


Pensar, é não encontrar coisa nenhuma

em coisa nenhuma.


Qual a coisa que o meu próximo vê

quando julga que me vê?

Não serei apenas uma imagem daquilo que ele quer,

não serei a que se escolhe por engano

mas que coincide com a que é?


De que sou, sou…

e se sou, assim também o meu próximo.

Mas o meu próximo não está comigo

como está a sua evidência.

Como amar uma evidência?

Como se consegue conquistar

para as nossas causas mais bravas?


Nossas?…

As minhas e as de mais ninguém!


Que no mundo só existo eu

e cada um à sua maneira.


terça-feira, 20 de setembro de 2022

UM VASO DE MARGARIDAS

Uma margarida olha-me 

com um olhar de quem já desistiu de olhar

só precisa de água

diz

para as suas pétalas ficam bronzeadas


Cuidado com o Sol

digo

mas a minha vontade 

é de entrar dentro de um buraco de minhoca

e ir

até à extremidade de um vaso capilar


O vaso da flor derrete-se

e o universo vai limpando os lábios

pois mais ninguém participa desta refeição


num tempo precário só resta a beleza


talvez nem a luz

nem a geometria aguda da alma


Só uma vontade de comer palavras

e de olhar cegamente


Não há cicatrizes no céu

diz um perfume de margarida


Mas a vida continua ferida

e é tão fácil desenhar uma flor

basta fechar os olhos e deixar cresce


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

NATUREZA MORTA

Uma maçã desafia outra: Vamos cair?

A outra responde que ainda está verde

Para esse tipo de aventuras.

Ah, que sorte nascer vermelha...

Melhor é nascer rente ao chão, responde.

Não, melhor é não ser morta pelas mãos.

A terra é suave,

E espera sempre pelos dias mais maduros,

Espera pelas melhores palavras.

A terra é sempre. Todos os dias há dias.

Todas as maçãs são feitas de terra doce.

Todas as maçãs são brancas como as palavras.

Todas as palavras têm sementes por dentro.

As palavras não caem sem estarem maduras.

As palavras crescem vermelhas,

Melhor, nascem rentes ao coração.

Todas as crianças gostam de roubar maçãs.

Todas as pessoas gostam de morder maçãs.

Todas as cidades têm árvores e avenidas.

A terra é sempre. Todos os dias há crianças.

Ninguém nasce sem a sua própria sombra.

Nenhuma sombra poisa no chão sem estar madura.

Nenhuma sombra descansa à sombra.

Nenhuma palavra se pode cortar em duas metades.

As avenidas já estão preparadas

Para qualquer tipo de aventuras.

As pessoas não estão preparadas

Para nenhum tipo de palavras.

As pessoas compram quilos de maçãs verdes.

As mãos não tocam na terra. Preferem as facas

Para descascar a pele das palavras.

As mãos não caem de felicidade.

A felicidade não cai de madura.

A terra é sempre. Todos os dias há milagres.     

E mãos para os fazer.

Nenhuma palavra descansa.

Nenhuma sombra se pode guardar nas mãos.

Nenhuma cidade cai do céu.


Adormeço e uma maçã cai-me no regaço. 


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

UM POEMA VAZIO


As pessoas vão e vêm pelas ruas

e a cidade está vazia

As janelas estão abertas

mas as pessoas sentem-se vazias

As árvores estão em flor

mas os pássaros vazios

não sabem onde bater suas asas

porque o céu é um vidro fechado

às rédeas altas do sonho


Ninguém sabe que as ruas estão vazias

porque todas as pessoas

têm os olhos vazios de tanto falar

e ninguém fala porque é feio 

falar com a boca cheia de palavras vazias


As pessoas dizem que não cabem na roupa

mas os braços caem das mangas

como navios à beira de um mar vazio

As mangas dão muito pano para o desespero

e o desespero deixa a boca vazia e amarga

como um mar caindo dos braços


As mães levam os filhos ao colo

e falam-lhes de um futuro vazio

Apesar disso

o futuro pesa nos olhos dos filhos

como uma ansiedade viva

que não se pode esquecer nem matar


A esperança enche as ruas desta cidade vazia

e as pessoas vão e vêm

enquanto aguardam o verde

ou o vermelho do destino

e ficam mudas de tanto esperar