quinta-feira, 21 de julho de 2016

ORAÇÃO PROFANA

Anne Karin Glass


Mãos que não matam nem semeiam
Manchadas de desejo vazio
Mãos impuras
Magoadas
Mãos caídas no corpo
Mãos que meditam seus cansaços
Mãos de derrota





segunda-feira, 18 de abril de 2016

RESQUÍCIOS DE SOL

 
Rafal Olbinski




Os pássaros chegam com a exactidão dos ventos
Trazem as horas abertas ao meio
De onde sai o perfume de águas matinais

Há um relógio de cinco ponteiros solares
Que divide a terra em dois passos

E os pássaros chegam sem mais perdas

Nem as memórias ficam por inventar
Porque em dois passos tudo se renova

A água nasce quando o poço fica sem moedas
São os pássaros que trazem mais janelas

Mas são os pássaros que nunca chegam
Os únicos que trazem miligramas de futuro




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

MÚSICA ESCONDIDA

Miró


Hoje fiquei com um dedo amarelo
De pintar uma aranha presa ao coração da lua
Mas ainda falta muito para ter um grito que se veja
Que salte para fora dos olhos
E seja tiro canhão e espada
Se lance por violenta escarpa
Não tenho sopro para tanto mar
O branco move-se feito sal e escama
Tão longo é o vestido que rodopia
Até cair em pranto de mil lágrimas
De mil cores transparentes
Tão vazio é o corpo da bailarina






quarta-feira, 23 de setembro de 2015

GOMOS DE OUTONO

Cathleen Rehfeld



As laranjas encolhem na ponta do lápis
Puxo pelo elástico do nariz
Mas o espirro não me sai
Só uma gota de sumo azul fluorescente
E a pupila grossa
Anda de cá para lá
Horizontalmente
Porque tenho a bainha dos dedos caída
Tudo é tão verdade quanto energia
Quanto as minhas moléculas rotas
Arregaço as mangas para não chorar mais
As laranjas são ácidas porque são de mim
Um fruto roubado às tardes

Hoje tenho palavras leves e apetece-me maracujás


terça-feira, 25 de agosto de 2015

AMANHECER DE CREPÚSCULOS

 
Martí Moreno

Já não passo nessa estrada desde ontem
Hoje é o lugar mais distante que existe
Porque não existe
Nem tem que existir
E o amanhã é só uma véspera adiada
De um futuro esquecimento

Todos os rostos se perdem
Não há olhar que fixe o olhar

Só há um agora frente à frente