terça-feira, 19 de setembro de 2017

Á FLOR DA PELE


Ninguém quer vestir a minha pele por dois ou três dias? Asseguro-vos que até é coisa bem simples, faço isso desde que nasci e não me queixo, acreditem. Se quero tirar uma folga, é apenas porque precisava de cortar alguns vínculos já demasiado enraizados a mim. O velho sentimento de inutilidade é um deles. Está desobediente desde a semana passada. Diz que se nega a ser uma pedra no meu sapato. Explico-lhe que nunca o foi, que não passa de um macaquinho no sótão, mas ele não acredita, deve andar com a pulga atrás da orelha. Exige ter um novo estatuto, do mesmo modo como apela a que eu mude de convicções.

Desde muito cedo, ainda criança, espantei todos os fantasmas e bichos papões que existiam escondidos debaixo da cama e atrás das portas. No Verão, com as janelas do quatro abertas, o piar das corujas era tão ameno quanto a claridade da lua cheia. Nem mil mosquitos por corda me fariam cismar nas minhas cismas. Se agora cismo é porque já tenho a pele demasiado apertada nos punhos e tornozelos. Seis milímetros de folga faziam-me bem. Poderia respirar fundo e descansar de mim. Todos os outros macaquinhos do meu sótão, também ficariam nas sete quintas, mortinhos para me verem pelas costas. Conheço-os de cor e salteado, garanto que apesar de não se notarem à vista desarmada, até têm boa pinta. Não lhes dou é confiança, isso não, mantenho o meu subconsciente sempre limpinho como se fosse um salão de baile.

Às vezes fecho os olhos para não falar. Já me cansa o ter de respirar fundo, a vida é capaz de ser tão incómoda quanto a prisão de vente. Às vezes, choco comigo de frente, pele na pele, olhos nos olhos, espelho limpo, sem corantes nem conservantes. Poderia dizer que tenho umas telhas, mas que com algum jeito, até dão jeito. Poderia avisar que sou superficial como os nenúfares.

Mas opto por ficar. Vou é à vida antes que se faça tarde.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

Distâncias perdidas


Quantas vezes a avó da minha avó terá ido ao Brasil num barco à vela? Tantas são as viagens que se prolongam através das tempestades, dos ventos em alto mar. Três meses de oceano sem fim, para lá do fim do mundo. Regressava de cada viagem com um filho no ventre. Imagino os enjoos, os cansaços lançados borda fora, os mortos rezados no escuro das íntimas ladainhas.

Os homens foram para a Lua, para o céu ou para o inferno consoante os seus jogos de estratégia. Todo o ouro do Brasil foi insuficiente, os homens perderam-se com as mulatas, ficaram desnorteados das ideias. Nem todo o ouro do Brasil foi esbanjando, a avó da minha avó terá tido o marido de volta, não sei bem, mas a casa construída possivelmente no século XVIII, ainda se mantém de pé, sem tremer nem abanar.

A minha avó perdeu a mãe muito cedo, ajudou a criar os oitos irmãos, herdou a máquina de costura, alguns terrenos e metade da casa. Metade que é e sempre foi uma casa inteira. A minha avó todos os anos assinalava o dia e a hora exacta da chegada das andorinhas. Os ninhos mantinham-se intactos, agarrados às vigas do cabanal. Entravam pelo lado dos ventos, saiam por cima do portão. Asas à solta num tempo em que a casa ainda era aberta, em que a vizinhança tinha permissão de ir ao poço abastece-se de água.

Tanto frio, tanta chuva. Depois a Primavera trazia as andorinhas e a minha avó sentava-se com os pés ao sol. Nasceu e morreu na mesma casa, em toda a sua longa vida nunca teve outro lar. Nunca teve necessidade de viajar para além do mar sem fim.

Foi grande o seu mundo.  



sábado, 11 de março de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

London Eye


Quiseste levar-me até às estrelas e eu aceitei. O meu sonho era entrar na roda gigante e contemplar as luzes da cidade lá do alto.

Subimos tão lentamente que tivemos tempo para trocar dois dedos de nicotina. Descansei a cabeça no teu ombro, certa de que naquele baloiçar só nosso, nenhum Deus iria espreitar.

Desejaria que a roda parasse antes de atingirmos o topo. Depois de tocarmos o céu, tudo seria sempre a descer. A decrepitude completa das nossas vidas, da nossa juventude já tão perdida.

Tínhamo-nos prometido um ao outro apressadamente, antes dos compromissos que fomos obrigados a cumprir. Cada um pelo seu caminho, sem cruzamentos nem inversão de marcha.

Andámos às voltas por aí, atravessando pontes incertas às horas mais desabitadas. E quando menos esperávamos, o relógio bateu a noite na cidade por onde passeávamos ao acaso, mãos nos bolsos, máquina fotográfica a tiracolo. Reconhecemo-nos pelo jeito distraído de contemplar os abismos da cidade.

O rio caminhou a par connosco até chegarmos à roda gigante. Quiseste levar-me até às estrelas e eu aceitei. Tocámos o céu já com um bocejo tão exausto e adormecido. O nosso breve encontro como sempre, terminou assim que voltamos a pôr os pés no chão.