quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ERRO ARQUEOLÓGICO





Como a profecia do fim do mundo tinha falhado, Alexandre estava capaz de morrer e matar por conta própria. Sentia-se lesado por demais nos cálculos que havia feito e não tinha ideia de como se poderia recompor. O rombo do qual havia sido vítima não era apenas financeiro e ia muito mais além do que se poderia supor. Era incalculável o esforça investido na preparação do apocalipse. Uma preparação minuciosa e que havia demorado largos anos de uma vida. Tudo para nada. Alexandre era agora um homem sem perspectivas de futuro.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ORAÇÃO PROFANA

Anne Karin Glass


Mãos que não matam nem semeiam
Manchadas de desejo vazio
Mãos impuras
Magoadas
Mãos caídas no corpo
Mãos que meditam seus cansaços
Mãos de derrota





terça-feira, 19 de julho de 2016

LUZ ANTIGA

 
Johannes Weiland


 

a janela ainda tem bons olhos
as pálpebras é que talvez já estejam em branco
mas os dedos ainda remendam memórias
e não há agulha mais exacta do que a do tempo

um tempo com tempo a mais
pintado num rosto velho

de velha



2010

segunda-feira, 18 de abril de 2016

RESQUÍCIOS DE SOL

 
Rafal Olbinski




Os pássaros chegam com a exactidão dos ventos
Trazem as horas abertas ao meio
De onde sai o perfume de águas matinais

Há um relógio de cinco ponteiros solares
Que divide a terra em dois passos

E os pássaros chegam sem mais perdas

Nem as memórias ficam por inventar
Porque em dois passos tudo se renova

A água nasce quando o poço fica sem moedas
São os pássaros que trazem mais janelas

Mas são os pássaros que nunca chegam
Os únicos que trazem miligramas de futuro




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

MÚSICA ESCONDIDA

Miró


Hoje fiquei com um dedo amarelo
De pintar uma aranha presa ao coração da lua
Mas ainda falta muito para ter um grito que se veja
Que salte para fora dos olhos
E seja tiro canhão e espada
Se lance por violenta escarpa
Não tenho sopro para tanto mar
O branco move-se feito sal e escama
Tão longo é o vestido que rodopia
Até cair em pranto de mil lágrimas
De mil cores transparentes
Tão vazio é o corpo da bailarina