terça-feira, 5 de junho de 2018

HISTÓRIAS CALADAS


De bicicleta até ao céu

Havia as três irmãs, é verdade. Ainda assim, dos rapazes, cinco foi a conta que Deus fez, e que a morte de um, ainda jovem, ainda com um filho por criar, reduziu para quatro. Depois, cada um no seu ofício, os irmãos Cardoso tiveram vidas e saberes prolongados. Genuína foi a amizade que sempre os uniu.

Habitantes dos dias puros, de quando o toque das trindades abria e fechava as horas de trabalho com um Pai Nosso rezado em silêncio. De quando o Inverno se prolongava pelas noites adentro, no aconchego das conversas à lareira; de quando o sol ameno de Março convidava a abrir a paisagem de par em par sobre o vale do rio Cértima, ou a flutuar o olhar pelas serranias mais próximas; de quando o Verão se sentava nas sombras frondosas dos pomares, onde as árvores abarrotavam de pássaros doces e fugidios; de quando o Outono oferecia as suas fartas colheitas, aquelas que enchiam o lar e impregnavam ar com o cheiro dos figos secos, das castanhas, do vinho novo.

Em qualquer época do ano, todas as tardes, depois do almoço, a sesta era um hábito que o meu avô Cardoso praticava com toda a reverência. Nem que fosse por poucos minutos, fechava os olhos e pausava a sua agulha de alfaiate. Nunca soube se dormia ou se costurava sonhos. Apenas recordo que uma enorme serenidade lhe iluminava o rosto.

De igual modo, fosse de Verão ou de Inverno, tenho na memória as saudáveis incursões que os irmãos Cardoso faziam nas suas muito prezadas bicicletas. Aprumadinhos nos fatos domingueiros, lá iam eles à descoberta de tudo o que houvesse de novo para ver e admirar. O assombro dos seus olhos fazia com que o mundo fosse um lugar sempre acabadinho de sair do forno. E quando digo mundo, refiro-me aos muitos quilómetros tranquilamente pedalados e às imprescindíveis paragens que serviam como pontos de referência. O crescimento notório de uns quantos pinheiros ou os alicerces de uma qualquer casa nova, era o bastante para eles se sentirem entusiasmados perante tão admiráveis avanços da humanidade. Quando digo mundo, pretendo evidenciar a capacidade de ir longe, de fazer itinerários que se podiam estender desde do Buçaco até à praia da Costa Nova. Digo mundo, agora, em que as mais curtas distâncias já só se fazem de automóvel.

Agora, os irmãos Cardoso já não enchem os bolsos de rebuçados para dar aos netos, já não fazem os seus passeios de domingo, já não levantam o chapéu para cumprimentar a vida. Mas tenho a certeza que continuam a pedalar por aí, algures, por entre as árvores perfumadas do céu.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

FRÁGIL ASSOMBRO

Fotografia: T. G.


Seja de novo  a primeira madrugada
a luz intacta
e toda a alma poisando
fina e harmoniosa
na lâmina de água transparente

Seja o silêncio um secreto enlevo
a plumagem serena
na lagoa que afaga o peito
a flor densa e caída
a lágrima que suspira

Assim, seja qual for o espelho ou o vento
a garça leve
leva-me

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

Mil frutos sem sentido


Piet Mondrian


O cheiro a maresia mistura-se na boca com a doçura sumarenta dos gomos da laranja.

Tanto mar à minha frente e nem tenho onde lavar as mãos. Descer a íngreme falésia é impossível. Nem para apanhar percebes, quanto mais. Mas também sei bem que há sempre alguém que se arrisque até às sete partidas do mundo.

A partir das sete da tarde o sol começa a molhar os pés, vai ficando ruborizado até às orelhas e finalmente afogar os últimos fôlegos de luz. Sempre que posso não perco pitada daquele diáfano adormecer.

Neste momento sou uma ilha rodeada de dúvidas por todos os lados. Não sei em quantas braçadas alcançaria uma estrela firme no céu. Não sei qual o sabor apagado dos meus ramos, das minhas folhas, dos meus frutos.


A laranja roída de inveja já não existe. Só os restos das cascas já secas permanecem nas minhas mãos. Ao longe, uma canção faz nascer um novo lugar, um novo mundo. As luzes das casas acendem-se. Primeiro uma, depois as outras. É hora de naufragar.