nas horas das sombras sobre as pálpebras
bate dentro de nós
com os seus nós de madeira
bate para afugentar o azar e o sono
São horas de abrir o vidro das colmeias
porque há uma consciência muito alimentada a pão
e a medo
Todas as culpas mordidas pelo mesmo dente
São horas de arrefecer os olhos
uma
duas
três
quatro e um quatro
Todos os músculos perdem a força
O pêndulo já não sabe se bate para trás ou para a frente
Na verdade, não existem nuvens silvestres
cinco
seis
noite e meia sem intervalos
Neste momento é preciso intervir a favor dos desertos
e dos prados
e dos moinhos
e dos monges do Tibete
e das águias reais
e dos segundos esquecidos
A fome dá sete badaladas na torre
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
O BATER DAS HORAS
Postado por Mofina
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
NINGUÉM VIVE DE POEMAS
ninguém espirra sonhos pelo nariz
ninguém mata a sede com veneno
ninguém mata o tempo pela raiz
ninguém corta o rio com uma tesoura
ninguém encolhe a sombra do chão
ninguém cobre a cabeça com folhas de alface
ninguém agasalha os pés com teoremas
ninguém enfeita os olhos com canela
ninguém mexe o coração com colher de chã
ninguém suspeita da imparcialidade das moscas
ninguém limpa as suas culpas com algodão
ninguém desiste de sua sede nem da sua fome
ninguém atrasa o tempo com um pontapé
ninguém adianta as ideias por acontecer
ninguém vive sem rosto
ninguém morre sem deixar rasto
ninguém luta contra os seus próprios braços
ninguém começa a crescer pelos sapatos
ninguém se enche de ternura abrindo uma torneira
ninguém apaga o Sol com um sopro
ninguém fecha os olhos para deixar de pensar
ninguém pensa para perder quilos
ninguém escreve para evitar a diabetes
ninguém grita para fazer flores molhadas
ninguém bebe água para se tornar transparente
ninguém cala as suas artérias mais quentes
ninguém fica preso fora do seu corpo
ninguém adormece antes de adormecer
ninguém se liberta das suas próprias asas
ninguém cai do azul dos seus sonhos
ninguém sonha sem rede
Postado por Mofina
domingo, 8 de Novembro de 2009
QUANTOS CRUZEIROS E COLCHÕES ORTOPÉDICOS!
Só se defende muito bem é ao telefone. Seja qual for a proposta ou oferta, responde que não precisa de nada porque já tem tudo. E desliga.
Postado por Mofina
sábado, 7 de Novembro de 2009
FILOSOFIA SEM PEDRA
As mães têm sempre razão, especialmente por serem mais velhas do que nós.
Postado por Mofina
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
SONHOS ACANHADOS
— Ah danadas, vocês vão ver quem manda!
A luta era tão intensa que não podia ser prolongada por mais de dez minutos. Assim, umas meias solas só ficavam prontas ao fim de um mês e tal, para a impaciência dos fregueses que ainda reclamavam do preço alto e da obra mal feita.
O meu vizinho queria lá saber, dedicava a vida a uma causa para ele muito mais importante: O funcionamento dos serviços de correio. Assinava jornais diários e semanais só com o propósito de ver se a correspondência chegava à hora certa. Um atraso, por mais insignificante que fosse, dava logo mote para ele ir para a rua anunciar:
— Não hei-de morrer sem um posto dos correio aqui na terra.
E não. O dia em que um posto dos CTT abriu, apesar de provisório e sem nenhumas condições, o homem sentiu-se com certeza um herói.
Não me lembro é se morreu antes ou depois da grande, moderna e verdadeira estação que agora existe ser inaugurada. Algo com a qual nem ousou sonhar.
Postado por Mofina
sábado, 31 de Outubro de 2009
domingo, 25 de Outubro de 2009
PEDRA ILEGÍVEIL

O medo ata as mãos
Mata o coração
Porque não mergulha nem salta
Fica
No limiar das portas
Enquanto toda a urgência se adia
Tanto por serenidade como por cobardia
O medo transgride o próprio pensamento
Que só se compromete para se mostrar isento
E para parecer que não se atrela
À liberdade pré-definida na tabela
Tão periódica que faz buracos no tempo
O medo desfaz a palavra
Escrita à medo na areia
Mas nesse cálculo já desmedido
Vence mais a vontade que o perigo
Postado por Mofina
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
CHOCOLATE

São as pétalas dos dias que me alimentam
Às vezes de forma tão inusitada
Que penso: Esta flor será para mim?
Quem me dera saber agradecer...
Postado por Mofina


