terça-feira, 23 de janeiro de 2018

FRÁGIL ASSOMBRO

Fotografia: T. G.


Seja de novo  a primeira madrugada
a luz intacta
e toda a alma poisando
fina e harmoniosa
na lâmina de água transparente

Seja o silêncio um secreto enlevo
a plumagem serena
na lagoa que afaga o peito
a flor densa e caída
a lágrima que suspira

Assim, seja qual for o espelho ou o vento
a garça leve
leva-me

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

Mil frutos sem sentido


Piet Mondrian


O cheiro a maresia mistura-se na boca com a doçura sumarenta dos gomos da laranja.

Tanto mar à minha frente e nem tenho onde lavar as mãos. Descer a íngreme falésia é impossível. Nem para apanhar percebes, quanto mais. Mas também sei bem que há sempre alguém que se arrisque até às sete partidas do mundo.

A partir das sete da tarde o sol começa a molhar os pés, vai ficando ruborizado até às orelhas e finalmente afogar os últimos fôlegos de luz. Sempre que posso não perco pitada daquele diáfano adormecer.

Neste momento sou uma ilha rodeada de dúvidas por todos os lados. Não sei em quantas braçadas alcançaria uma estrela firme no céu. Não sei qual o sabor apagado dos meus ramos, das minhas folhas, dos meus frutos.


A laranja roída de inveja já não existe. Só os restos das cascas já secas permanecem nas minhas mãos. Ao longe, uma canção faz nascer um novo lugar, um novo mundo. As luzes das casas acendem-se. Primeiro uma, depois as outras. É hora de naufragar.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

AS CORES DO VENTO

No tempo das sereias de longas tranças
Os pescadores tinham chapéus de Robin Hood
Era assim  que se protegerem dos ninhos de vespas
Que iam encontrando ao abandono
Por entre as ruínas dos seus pesadelos

A matemática é inimiga dos mistérios
Que dividem uma mulher ao meio
Só os caroços das maçãs têm explicação lógica 

É certo que as sereias apenas existiram
No tempo em que o tempo ainda estava bem escondido
No interior das horas mais agarradas aos pulsos

É certo que metade do mundo é um mundo inteiro
E nada acontece sem o choroso cantar das estrelas

No fundo das palavras sem fim