sexta-feira, 12 de maio de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

Distâncias perdidas


Quantas vezes a avó da minha avó terá ido ao Brasil num barco à vela? Tantas são as viagens que se prolongam através das tempestades, dos ventos em alto mar. Três meses de oceano sem fim, para lá do fim do mundo. Regressava de cada viagem com um filho no ventre. Imagino os enjoos, os cansaços lançados borda fora, os mortos rezados no escuro das íntimas ladainhas.

Os homens foram para a Lua, para o céu ou para o inferno consoante os seus jogos de estratégia. Todo o ouro do Brasil foi insuficiente, os homens perderam-se com as mulatas, ficaram desnorteados das ideias. Nem todo o ouro do Brasil foi esbanjando, a avó da minha avó terá tido o marido de volta, não sei bem, mas a casa construída possivelmente no século XVIII, ainda se mantém de pé, sem tremer nem abanar.

A minha avó perdeu a mãe muito cedo, ajudou a criar os oitos irmãos, herdou a máquina de costura, alguns terrenos e metade da casa. Metade que é e sempre foi uma casa inteira. A minha avó todos os anos assinalava o dia e a hora exacta da chegada das andorinhas. Os ninhos mantinham-se intactos, agarrados às vigas do cabanal. Entravam pelo lado dos ventos, saiam por cima do portão. Asas à solta num tempo em que a casa ainda era aberta, em que a vizinhança tinha permissão de ir ao poço abastece-se de água.

Tanto frio, tanta chuva. Depois a Primavera trazia as andorinhas e a minha avó sentava-se com os pés ao sol. Nasceu e morreu na mesma casa, em toda a sua longa vida nunca teve outro lar. Nunca teve necessidade de viajar para além do mar sem fim.

Foi grande o seu mundo.  



sábado, 11 de março de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

London Eye


Quiseste levar-me até às estrelas e eu aceitei. O meu sonho era entrar na roda gigante e contemplar as luzes da cidade lá do alto.

Subimos tão lentamente que tivemos tempo para trocar dois dedos de nicotina. Descansei a cabeça no teu ombro, certa de que naquele baloiçar só nosso, nenhum Deus iria espreitar.

Desejaria que a roda parasse antes de atingirmos o topo. Depois de tocarmos o céu, tudo seria sempre a descer. A decrepitude completa das nossas vidas, da nossa juventude já tão perdida.

Tínhamo-nos prometido um ao outro apressadamente, antes dos compromissos que fomos obrigados a cumprir. Cada um pelo seu caminho, sem cruzamentos nem inversão de marcha.

Andámos às voltas por aí, atravessando pontes incertas às horas mais desabitadas. E quando menos esperávamos, o relógio bateu a noite na cidade por onde passeávamos ao acaso, mãos nos bolsos, máquina fotográfica a tiracolo. Reconhecemo-nos pelo jeito distraído de contemplar os abismos da cidade.

O rio caminhou a par connosco até chegarmos à roda gigante. Quiseste levar-me até às estrelas e eu aceitei. Tocámos o céu já com um bocejo tão exausto e adormecido. O nosso breve encontro como sempre, terminou assim que voltamos a pôr os pés no chão.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

HISTÓRIAS CALADAS


Passos Transparentes


A cada refeição tenta emagrecer os ossos, ninguém percebe a necessidade que ela sente de perder peso. E insistem, insistem. Mais uma colher, todos de olhos e holofotes voltados para o seu prato. Patrícia serve-se à grande de alface, que mais pode fazes para calar essas bocas?

Três centímetros de lágrimas gordas, celulite e mais celulite das unhas até ao casaco flácido. Faz step às escuras nos degraus da escada, mas jura que não se lembra. Nem o espelho sonâmbulo a deixa em paz, é perseguida onde quer que vá. Abandona-se nas fotografias de família, a miúda redondinha ao colo das tias, sorri à memória das festas de anos. O que queres ser quando fores crescida?

Só mais uma colher antes que desapareças. Patrícia vai conseguir esconder-se debaixo da folha de alface. Para fugir à sua própria sombra.