terça-feira, 22 de novembro de 2016

HISTÓRIAS CALADAS


Passos Transparentes


A cada refeição tenta emagrecer os ossos, ninguém percebe a necessidade que ela sente de perder peso. E insistem, insistem. Mais uma colher, todos de olhos e holofotes voltados para o seu prato. Patrícia serve-se à grande de alface, que mais pode fazes para calar essas bocas?

Três centímetros de lágrimas gordas, celulite e mais celulite das unhas até ao casaco flácido. Faz step às escuras nos degraus da escada, mas jura que não se lembra. Nem o espelho sonâmbulo a deixa em paz, é perseguida onde quer que vá. Abandona-se nas fotografias de família, a miúda redondinha ao colo das tias, sorri à memória das festas de anos. O que queres ser quando fores crescida?

Só mais uma colher antes que desapareças. Patrícia vai conseguir esconder-se debaixo da folha de alface. Para fugir à sua própria sombra.



domingo, 30 de outubro de 2016

ESCADAS ROLANTES

 Maria Manuel Rocha


Fórum Aveiro


De andar para andar
Há pessoas que crescem do chão
Enquanto outras se apagam

Uma mulher, por exemplo, começa a nascer pela cabeça
E lentamente vai ficando inteira
Até à pontinha da sandália Pablo Fuster

Que estranha arquitectura esta
A dos pés rotos nos calcanhares

Um homem, esse, perde metade das pernas
Depois perde os músculos da caixa torácica
Que sobressaem bem atléticos na t-shirt Hugo Boss
E por último são os óculos de mergulhador que se afundam

Há janelas suspensas entre dois olhares
E um frenético movimento de avestruzes

Um sorriso multi-uso elabora o seu desconto
Ganhando um brinde com sabor a Mon Chéri

Não há regras para o infinito
Num elevador -2
A solidão já não combina com nada
Nem com ganga nem com seda
Oh triste café mexido com pauzinho de canela

O Sol é a moeda de troca mais falsa
Que os deuses inventaram

Agora o jardim das oliveiras é no último andar




Publicado na revista Folhas – Letras & Outros, 2001

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CATIA LA MAR


Debbie Miller


O verão já passou
Já passou o mergulho forte
De quando tinha a boca aberta
E engolia muitos litros de medo
Mal nascia era logo para naufragar
Era para brincar com a pá e o baldinho
Cheio de água salgada e de bivalves
Tentava apertar-lhes o pescoço
Cada vez que se abriam na concha
Mas eles eram sempre mais rápidos
Do que o meu mergulho
Do que o meu medo de boca aberta


Já passou o tempo todo
Posso apagar o chão com um risco
Morrer com um x no quadrado



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ERRO ARQUEOLÓGICO





Como a profecia do fim do mundo tinha falhado, Alexandre estava capaz de morrer e matar por conta própria. Sentia-se lesado por demais nos cálculos que havia feito e não tinha ideia de como se poderia recompor. O rombo do qual havia sido vítima não era apenas financeiro e ia muito mais além do que se poderia supor. Era incalculável o esforça investido na preparação do apocalipse. Uma preparação minuciosa e que havia demorado largos anos de uma vida. Tudo para nada. Alexandre era agora um homem sem perspectivas de futuro.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ORAÇÃO PROFANA

Anne Karin Glass


Mãos que não matam nem semeiam
Manchadas de desejo vazio
Mãos impuras
Magoadas
Mãos caídas no corpo
Mãos que meditam seus cansaços
Mãos de derrota