sábado, 11 de março de 2017

HISTÓRIAS CALADAS

London Eye


Quiseste levar-me até às estrelas e eu aceitei. O meu sonho era entrar na roda gigante e contemplar as luzes da cidade lá do alto.

Subimos tão lentamente que tivemos tempo para trocar dois dedos de nicotina. Descansei a cabeça no teu ombro, certa de que naquele baloiçar só nosso, nenhum Deus iria espreitar.

Desejaria que a roda parasse antes de atingirmos o topo. Depois de tocarmos o céu, tudo seria sempre a descer. A decrepitude completa das nossas vidas, da nossa juventude já tão perdida.

Tínhamo-nos prometido um ao outro apressadamente, antes dos compromissos que fomos obrigados a cumprir. Cada um pelo seu caminho, sem cruzamentos nem inversão de marcha.

Andámos às voltas por aí, atravessando pontes incertas às horas mais desabitadas. E quando menos esperávamos, o relógio bateu a noite na cidade por onde passeávamos ao acaso, mãos nos bolsos, máquina fotográfica a tiracolo. Reconhecemo-nos pelo jeito distraído de contemplar os abismos da cidade.

O rio caminhou a par connosco até chegarmos à roda gigante. Quiseste levar-me até às estrelas e eu aceitei. Tocámos o céu já com um bocejo tão exausto e adormecido. O nosso breve encontro como sempre, terminou assim que voltamos a pôr os pés no chão.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

HISTÓRIAS CALADAS


Passos Transparentes


A cada refeição tenta emagrecer os ossos, ninguém percebe a necessidade que ela sente de perder peso. E insistem, insistem. Mais uma colher, todos de olhos e holofotes voltados para o seu prato. Patrícia serve-se à grande de alface, que mais pode fazes para calar essas bocas?

Três centímetros de lágrimas gordas, celulite e mais celulite das unhas até ao casaco flácido. Faz step às escuras nos degraus da escada, mas jura que não se lembra. Nem o espelho sonâmbulo a deixa em paz, é perseguida onde quer que vá. Abandona-se nas fotografias de família, a miúda redondinha ao colo das tias, sorri à memória das festas de anos. O que queres ser quando fores crescida?

Só mais uma colher antes que desapareças. Patrícia vai conseguir esconder-se debaixo da folha de alface. Para fugir à sua própria sombra.



domingo, 30 de outubro de 2016

ESCADAS ROLANTES

 Maria Manuel Rocha


Fórum Aveiro


De andar para andar
Há pessoas que crescem do chão
Enquanto outras se apagam

Uma mulher, por exemplo, começa a nascer pela cabeça
E lentamente vai ficando inteira
Até à pontinha da sandália Pablo Fuster

Que estranha arquitectura esta
A dos pés rotos nos calcanhares

Um homem, esse, perde metade das pernas
Depois perde os músculos da caixa torácica
Que sobressaem bem atléticos na t-shirt Hugo Boss
E por último são os óculos de mergulhador que se afundam

Há janelas suspensas entre dois olhares
E um frenético movimento de avestruzes

Um sorriso multi-uso elabora o seu desconto
Ganhando um brinde com sabor a Mon Chéri

Não há regras para o infinito
Num elevador -2
A solidão já não combina com nada
Nem com ganga nem com seda
Oh triste café mexido com pauzinho de canela

O Sol é a moeda de troca mais falsa
Que os deuses inventaram

Agora o jardim das oliveiras é no último andar




Publicado na revista Folhas – Letras & Outros, 2001

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ERRO ARQUEOLÓGICO





Como a profecia do fim do mundo tinha falhado, Alexandre estava capaz de morrer e matar por conta própria. Sentia-se lesado por demais nos cálculos que havia feito e não tinha ideia de como se poderia recompor. O rombo do qual havia sido vítima não era apenas financeiro e ia muito mais além do que se poderia supor. Era incalculável o esforça investido na preparação do apocalipse. Uma preparação minuciosa e que havia demorado largos anos de uma vida. Tudo para nada. Alexandre era agora um homem sem perspectivas de futuro.