quinta-feira, 18 de agosto de 2011

SEM SUBTERFÚGIOS

O que se procura quando se escava
na raiz do silêncio?
O futuro vem à superfície
sempre que se inventa uma ideia.
Não há nada mais apertado do que a pele
que nos cobre da cabeça ao coração...

Todas as coisas que existem
estão tão perto,
basta cruzar os braços
para se atar uma ponta azul de mar
à ponta mais frágil do deserto.

Tudo é tão explícito
que mesmo o sol mais disfarçado
salta logo à vista de quem o quiser apanha!

Não há onde esconder as mãos
e a pedra que se atira
sai sempre do mesmo bolso.

sábado, 11 de junho de 2011

DESCONFORTO


aos sábados as janelas põem a língua de fora
mostrando ao sol as amígdalas vermelhas dos tapetes
que espirram muito por causa da alergia ao pó

aos sábados as flores são estranguladas
enquanto se muda a água do relógio
e se dá corda ao tédio
porque é dia de arejar as palavras
de abrir as cortinas do sono mais pesado

mudar as sombras e fazer as camas de lavado
perfumar a roupa mais habitável
não esquecer os peixes e os copos de vidro
a fruta morta no cesto amargo
sem teias escondidas nos cantos do mundo
as almofadas viradas do avesso
a consciência cheia de sumaúma

mas
com as cadeiras fora das suas posições
e todos os sítios fora de sítio
já não há lugar para poisas os olhos

terça-feira, 24 de maio de 2011

antes de voarem
os pássaros têm um subterrâneo dourado
junto às pupilas
depois disparam lágrimas contra a luz
ficam pesados com tantos satélites



cristina néry
e
regina

terça-feira, 5 de abril de 2011

BOA NOITE



Não mato a cabeça quando penso
A cabeça não é coisa que se gaste como se fosse água
Ou gás
Nem se queima como acontece com as lâmpadas

A cabeça é uma boa ferramenta de trabalho
Só é preciso fazer os movimentos certos
E ter cuidado para as ideias não cortem os dedos

Mais do que uma ferramenta de trabalho
É um instrumento de precisão
Tal como um bisturi ou um míssil

Penso que não mato a cabeça quando penso
Mas para prevenir qualquer engano não penso muito
Dá-me jeito ficar assim
Com os neurónios parados

Quando anoitece as janelas apagam-se
Para que possamos adormecer à vontade
Conforme as figuras geométricas se vão partindo
E não haja nem mais uma linha curva
Para pôr em cima dos joelhos e aquecer

esquecer
escrever

sábado, 12 de março de 2011

UM PASSO EM FRENTE

Quando os óculos acordam do seu sono crepuscular
As pontes ficam mais altas e traiçoeiras
O céu parece que abana por cima das nossas cabeças
E é difícil encontrar o equilíbrio entre o leve e o profundo
Porque todos os alicerces têm buracos cósmicos
Onde a luz se perde quando se quer ultrapassar

Já perdemos o rumo das estrelas submersas
Agora é ir e escolher as melhores fotografias
Pois o coração já tem um óptimo formato digital
Que até pode captar os dias que estão por fazer

Uma sensação de impaciência
Enche-me o guarda-chuva de mosquitos
Não sei por onde começar as nuvens
Que tenho de construir para amainar o vento

Tudo é mais fácil do que abrir uma janela

As palavras fecham-se por dentro
Para não serem apanhadas em flagrante
E ninguém possa escrever sem as pesar nas mãos

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

PORQUE ÀS VEZES NÃO HÁ MESMO PALAVRAS...





... e as que existem são demais

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A VERDADEIRA MENTIRA

   
Chega de verdades: Quem me diz a mentira do mundo?
Não quero segredos
Dêem-me o veneno e a seta duma vez
Que o ar é para sufocar quem respira
Isso já sei
Que o mar tem portas no fundo
Por onde se escondem os Deuses incomunicáveis
Também o suspeito
Que há outra Lua para além das quatro fases
E outro deserto que não este, tão coberto de alucinações
Não é novidade
Mas quem me diz a mentira libertadora,
Aquela que há-de acordar as pedras?


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ESPERANÇA

A luz ao fundo do túnel

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

EIS A QUESTÃO

a madrugada acorda em cima do rosto
e os vegetais perfumados pelos insectos
assustam-se com o silêncio que se ilumina


a madrugada abre-se em flor em cada sílaba
pesa tanto o espanto dos músculos
de repente a memória toda
no caderno com 365 folhas numeradas
na voz afogada no fundo de água


a madrugada vem sem um passo atrás
mas logo a indecisão
cair ou voar?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ANDA NO AR

Continua o frio

Há peixes abelhudos a espreitar pelas portas
É necessário um esquema para fugir ao ruído
das pedras maduras. E acordo
Com a boca vazia para morder as mãos
As próprias mãos sem um agasalho
Sem uma explicação para a falta de amêndoas azuis
Nu corpo
No esquecimento teimoso de todas as horas
De todas as raízes

E acordo pensando como é desnecessário acordar
sem nenhum plano estratégico
Apenas com a humidade branca e sem diálogo
Apenas com uma vontade de boca e um voo arrepiado

Lá fora a música até corta

Qualquer coisa vai acontecer