segunda-feira, 6 de junho de 2022

O PERCURSO DA LUZ

 

Bráulio espera as sereias gordas, de barrigas inchadas, quase a rebentar pelo umbigo, para com elas avançar até à saída do mundo, do mundo que é o seu próprio corpo todo apertado por dentro, músculos contra músculos.


Mas o pensamento de Bráulio é livre por natureza e convicção. Ele não tem de esperar por nada nem por ninguém. A sua espera é o futuro já em pé. A sua espera é a vida de goelas abertas:


- Sou um homem feliz, ouviram? Sou um homem feliz!!!


Bráulio é feliz porque nos seus sonhos cabem todas as mulheres de saias redondas, puras mães de santo, com charutos mordidos até à raiz da música, com batuques de uma dança ancestral que se acelera na respiração mais sufocada. 


Bráulio é feliz porque se reconhece como compatriota de todos as pessoas clandestinas, que rasgam os pés nos arames farpados, e mesmo assim persistem, caminhando sempre em frente, até aos territórios proibidos de uma geografia ainda estúpida que teima em se manter fechada.


Bráulio é feliz porque brinca com todas as crianças perfumadas pelo sol e pela lua, crianças que espreitam por detrás da enorme montanha nua, um dois três, toda a ingenuidade é incomensuravelmente feliz. 


Às escondidas, contando até cem, todos nós somos felizes, sem sombras de dúvida, sem sobras de riqueza, sem arrotos de fome, sem vómitos de hipocrisia.


- Procuro um abraço impregnado de paladar, de tacto e de urgência. Um abraço desobediente por ser descaradamente livre. Um abraço tão devastador quanto as asas que afloram dos colossais lombos das borboletas. Um abraço intrínseco e universal que me habite e me mate por inteiro. 


Bráulio, o despojado! 


Deixa cair a máscara, as lâminas frívolas, a veloz memória, as lágrimas longínquas.  


- Acredito na humanidade dita sem remissão! Amo-a a qualquer preço, vivo-a ­à viva força, invento-a com ímpetos de gula e de loucura... 


Bráulio, o derradeiro!


Primordial beijo por colher, por morder, por incendiar.

 

 * Texto elaborado para CRIARTE TEATRO 2021 appacdm-viana do castelo


segunda-feira, 21 de março de 2022

POEMAS POR ESCREVER

Haverá poemas muito bem calibrados

Poemas de métrica medida a olho

Repletos de muita lábias e unha bicuda 

Poemas propícios ao bem da humanidade

Decalcados em tinta semântica muito nítida 

Poemas náuticos a sair dos olhos

Muito vendidos ao preço das formigas

Poemas alucinados e altamente traficados 

Alma ou arma tanto faz desde que matem

Poemas sem fundos de deslumbramentos

Fechados bem no fundo por mútuo consentimento

Poemas tão tépidos quanto épicos

Poemas com flores fulminantemente 

Poema até ao fio do sangue 

Poemas de sal de sol de sede


E haverá poemas carnívoros  

Letra a letra de todas as palavras arrancadas

Letra morta de uma vida já sem boca

Letra lenta de uma humanidade ainda sem roda


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

"Feitas de Ferro, Desenhadas a Carvão" Era Uma Vez Teatro - APPC

 

Cravo-te as unhas em volta do pescoço. Já não aguento os teus beijos de hiena. Tens os dentes podres de tanto te alimentares de carne morta. Mas sou o cadáver que anseia por todos os teus regressos.

Os ossos do meu corpo aparecem partidos nas radiografias, fraturas expostas, que não consigo disfarçar. Bem me escondo da cabeça aos pés com as jóias e as roupas de marca mais caras. São os fardamentos completos que me impões e que eu uso com obediência. Quiçá também com uma incerta vaidade. Quando ando com o braço ao peito, coloco a pulseira mais cravejada de brilhantes, aquela que provoca maior inveja. Pudera, há sempre bandos de abutres comovidos a rondar por perto. Assim como as andorinhas sem cabeça que me chamam para o abrigo dos seus ninhos. Coitadas, como são tão tontas.

Ninguém compreende como sou mulher de unhas afiadas. Uma mulher que às vezes tenho voz e avanço para a linha da frente, contra o inimigo que se ajoelha à minha cintura, implorando-me perdão. Às vezes sou detentora de um arsenal de armas secretas, com as quais podia matar e estrangular o mundo. Mas basta-me a maneira como te estoiro com a fúria dos meus lábios.

Ah, nem sonhas do que sou capaz de fazer para me libertar. E liberto-me sim, sobretudo porque preciso de te prender a mim de forma tão cega quanto avara, de te aprisionar dentro dos meus músculos cardíacos, de te sentir de cabeça adormecida, caída sobre o meu peito. 

Aos domingos de tarde, quando passeamos de mãos dadas, com os dedos só suavemente entrelaçados, quase posso jurar que sorris e que tens os olhos rasos de lágrimas. Temos uma vida bonita de se ver, poderíamos pô-la na varanda ao sol.

Mas sou a mulher que tropeça na vida e rola escada abaixo, a mulher dos hematomas maquilhados com muita base, a mulher das pernas rasgadas, a mulher dos cabelos arrancados da raiz até ao crânio. Sou a mulher que erra em tudo o que faz ou deixa por fazer, a mulher sem serventia, que apenas serve para tirar um homem do sério, esse amo e senhor de todas as coisas. Dono da minha vontade.

Por isso não perdoo a covardia que me ata as mãos desde o amor à primeira vista, à primeira bofetada. E cravo-te as unhas em volta do pescoço porque sei que é a mim que quero matar, em nome de todas as mulheres anónimas, de todas as mulheres que vivem mortas, de todas as mulheres que calam a revolta, de todas as mulheres que desenham corações no espelho embaciado por uma respiração já sufocada ao longo dos séculos. 

Cravo as unhas nas paredes rasgadas do futuro e denuncio-me a mim mesma, com todo o medo de que sou vitima.

 

 

 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

PALAVRAS EM BRANCO

Há idades sem prazo de validade

Idades em que se morre de amor em cada suspiro


Só quando as articulações das pernas e dos braços caducam

É que o amor se torna vitalício


As pedras amolecem

Mas desmedida é a areia que cai e que passa



Com amor, caminhamos por cima das águas

sexta-feira, 2 de abril de 2021

EXALTAÇÃO EM TEMPOS DE ABISMOS

Talvez seja infame a passagem dos humanos aqui na terra
Já Noé os tinha proscritos da limpa liberdade dos outros bichos
Dos que voam, submergem ou rastejam
Macho e fêmea, resfolegando hálitos de insaciável gula
Louvas-as-deus sem dedos
Um longo fio de contas
Com pedras minúsculas que nenhum vento reza

É possível que o planeta esteja programado para ser azul
E mais nada, matéria de mero acaso em trajetória não traçada

Da espécie que conspurca o cosmo com as suas marcas rupestres
Não se esperava tanta memória nem alarido
A música, a lógica, a roda, o tiro, o coração, o medo
Tudo isso era para ter ficado atravessado no pescoço do tempo
Sem nunca precisar de ter sido engolido

E agora Adão? Tu próprio achas que mereces sair de cena
Sentes que mataste o céu com a tua ganância e a tua pressa
Atormentado, não apaziguas o pecado da sapiência
E continuas a expulsar de ti o fruto e o mel de cada dia,
Vivendo entre a inquietação e a obscura alegoria

Mas Platão, não eternizes muito mais a tua saída!

Vê, o teu tempo ainda não esta no fim, humana criatura,
Baloiça bem alto todos teus sonhos,
Mede a palmo o infinito que em ti sobeja
E que o teu coração se amplie

Até o deslumbre dos pássaros

O LACRE INVIOLÁVEL DAS PALAVRAS

As janelas abrem-se para arejar as casas pela manhã

A morte universal, histérica até à ponta dos cabelos

Já não se aguenta mais o significado nauseabundo das palavras 

Ainda que seja verdade que as mulheres falam muito 

Falam para arejar, pois era sabido que nos fins dos tempos

Iria ser assim, com a invisibilidade de um deus que enlouquece

Por não existir, por não conseguir ouvir os segredos das mulheres 

Que falam alto, histéricas, sempre histéricas, como o amor

O amor que não sai, mesmo que se puxe a tosse do fundo do peito

terça-feira, 26 de maio de 2020

UM SOPRO DE LUZ

Foto: Horácio Graça


Duvido
De ouvido

Perfume que leio
Logo penso
Mais longe e mais tarde
Agora não
Por ora
Só um dentes-de-leão

Flor incauta

Não sei morrer

Dentro
O barco voa

sexta-feira, 27 de março de 2020

UM OLHAR DE ESPERANÇA


Acordo e estou a passear nos jardins suspensos da Babilónia, quem diria! Não me canso de subir escadas após escadas. Escher faz-me a vontade, mas basta uma só volta, para me troca todas as voltas. Mesmo assim, deixo-me deslizar no correr das águas que caem de socalco em socalco. Em cada queda, subo mais vinte mil patamares. Todos os terraços têm labirintos circulares, é necessário caminhar no sentido directo dos ponteiros do relógio. Vejo doze pontos de fuga, experimento e em qualquer deles, há uma saída para o interior de mim.

Acordo outra vez, agora na torre de Babel. Uma pessoa cruza-se comigo. Depois outra. E ainda mais outra. Um silêncio nos ombros cansados, uma multiplicação de idiomas que se vão apunhalando pelas costas. Respiro para não ter de respirar. 

Quero acordar. As flores precisam de beijos para se proteger dos venenos que vêm do pensamento. As pessoas que se cruzam comigo têm o meu próprio rosto, o mesmo batimento cardíaco, a mesma urgência de levantar o pescoço e olhar o mundo pela primeira vez.

Vou acordar sempre porque a humanidade é a única palavra que me resta.



#DEPemcasa 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A VERTIGEM DOS PÁSSAROS


Só custa cair
De resto, tudo na vida é lento e infame.
Não há mistério, a porta no seu umbral
Tanto dá como se esquece

Ao cair
Ressurge a ferida do primeiro instante,
O sangue ainda vivo
Ainda tão grande quanto a mágoa

Caído no chão
O tempo ressuscita, ergue-se
Da mão que o mede:
Um nada acima da certeza
Outro tanto de hesitação

Vem cair,
Todas as palavras já deram o seu fruto
Agora podemos ser leves,
Apagar todos os medos do mundo

Só caindo
A morte se atenua e se dilata,
Por ser a substância que ainda falta,
O caminho de tréguas, a rosa toda ampla

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A MOÇA DA SAIA VERDE


CRU - corpo (im)perfeito https://www.instagram.com/cru_ocorpoimperfeito/



dói-me o peito, mas o coração não dói, isso eu sei
assim como sei que o chá de limão faz bem
sempre que nos sentimos mal, dizem que há muito calor
na Califórnia, eu digo que as patas da humanidade
estão a cheirar a pneus queimados
o amor também pode ser inflamável, nunca
uma bomba atómica me saiu dos cantos dos lábios,
o sono alivia-me de tudo, dói-me o peito
porque tenho cólicas, nada mais do que isso
eu sei
assim como não sei quantas gotas de veneno
têm os soldadinhos de chumbo
os meus olhos podem guardar caroços de azeitona,
eu sou
um canteiro bom para plantar repolhos
mas não sou capaz de abrir as mãos completamente
de modo a mostrar as linhas do destino,
são outras as linhas que em mim se entrecruzam
com barcos e aviões de todos os lados
o peito com muito fumo, doem-me as cordas vocais
nas vogais que me navegam, um corte profundo
nos cabelos e um disparar de flechas
até desobstruir a alma, o caminho e o nariz