terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A VERDADEIRA MENTIRA

   
Chega de verdades: Quem me diz a mentira do mundo?
Não quero segredos
Dêem-me o veneno e a seta duma vez
Que o ar é para sufocar quem respira
Isso já sei
Que o mar tem portas no fundo
Por onde se escondem os Deuses incomunicáveis
Também o suspeito
Que há outra Lua para além das quatro fases
E outro deserto que não este, tão coberto de alucinações
Não é novidade
Mas quem me diz a mentira libertadora,
Aquela que há-de acordar as pedras?


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ESPERANÇA

A luz ao fundo do túnel

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

EIS A QUESTÃO

a madrugada acorda em cima do rosto
e os vegetais perfumados pelos insectos
assustam-se com o silêncio que se ilumina


a madrugada abre-se em flor em cada sílaba
pesa tanto o espanto dos músculos
de repente a memória toda
no caderno com 365 folhas numeradas
na voz afogada no fundo de água


a madrugada vem sem um passo atrás
mas logo a indecisão
cair ou voar?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ANDA NO AR

Continua o frio

Há peixes abelhudos a espreitar pelas portas
É necessário um esquema para fugir ao ruído
das pedras maduras. E acordo
Com a boca vazia para morder as mãos
As próprias mãos sem um agasalho
Sem uma explicação para a falta de amêndoas azuis
Nu corpo
No esquecimento teimoso de todas as horas
De todas as raízes

E acordo pensando como é desnecessário acordar
sem nenhum plano estratégico
Apenas com a humidade branca e sem diálogo
Apenas com uma vontade de boca e um voo arrepiado

Lá fora a música até corta

Qualquer coisa vai acontecer

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

À VELOCIDADE DA SOMBRA


amanhã nunca morrerei
se em todos os momentos
andar à velocidade da sombra

Hoje nem uma pedra sonha

e o resto do tempo é uma metáfora
um céu vagabundo que cerra os dentes para não gritar
uma gota de mel que cai de uma nuvem constipada

nada acalma a lua
as suas dioptrias de Ser transparente

Hoje nem um nó

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CARTOGRAFIA

Apago as linhas do mapa

Ponho as montanhas ao nível da régua
Levanto o mar até afogar os olhos dos pássaros
Até inundar todos os centímetros do universo

Mas tudo é intenso e clandestino
E não há nenhum lugar para as águas
Nem mesmo para as mais secretas

É preciso voltar ao princípio das descobertas
Desta vez com  melhor vontade
Guardando o futuro numa caixa bem aberta

Ir até onde a voz acaba e o céu começa

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

SINAIS DE FUMO

 
A locomotiva fuma a terra até aos ossos,
vai acelerada e negra
girando em volta dum poço aberto
preste a descarrilar das calhas do sentimento,
preste a engolir o fogo do universo.

A locomotiva arde na luz do horizonte,
tudo é mar e o seu inverso,
lucidez negativa
a boca altiva, fornalha de futuro.

Pouca vida, pouca vida…
Gosto do teu sabor a ferro,
Gosto do teu saber a excesso.

Velocidade apagada,
nunca alcanço o que penso
porque vivo nas curvas do infinito.

Dentro da fala arde a lenha
desta pressa
desta viagem acesa.

A locomotiva entra no túnel da garganta
para gritar o nó mudo
do mundo cego.

Tudo é mar e o seu regresso.

Pouca água, pouca água…
Quero chegar
Quero viver fundo, até aos ossos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Era uma vez uma chávena de chá que tinha graves 
problemas de consciência, mas que mesmo assim 
gostava de se mostrar trasbordante de sabedoria. 
Até que um dia caiu no chão e partiu uma asa. 

Era uma vez uma caneta que se preparava para 
assumir a plenitude da sua idade, quando de repente 
ficou sem tinta. 

Era uma vez uma estrela polar que apesar da sua 
carência afectiva, se esforçava por permanecer 
no mais absoluto segredo profissional. 

Era uma vez uma linda bicicleta de montanha que 
sofria de graves problemas de coluna, até quando 
o percurso era a descer. Por isso não teve outra 
solução do que parar e dedicar-se à escrita. 

Era uma vez um rico relógio de prata que vivia num 
magnífico palácio onde exercia o honroso cargo de 
guia turístico. Até que um dia foi declarado relíquia 
arquitectónica e não conseguindo suportar tal desgosto, 
deu em beber mesmo sabendo que não era à prova de água. 

Era uma vez uma mesa rectangular que por falta 
de verbas, teve de optar por ficar calada, apesar 
da sua potencialidade para mesa redonda. 

Era uma vez um advogado de defesa que se partiu 
e não voltou a ser recuperado pois não valia a pena tal 
investimento, tanto mais num período de tão grande 
contenção económica. 

Era uma vez um girassol com cara de poucos amigos 
que costumava estar virado para a parede e só se 

mostrava em dias de grande solenidade ou 
quando não avistava nenhum turista por perto. 

Era uma vez uma linha recta que ficou interrompida 
temporariamente para beneficiação mas que apesar 
desse contratempo, continuou a sua árdua luta 
pelos direitos humanos. 

Era uma vez um número primo que recebeu 
uma condecoração pelos actos praticados 
em prol do progresso científico e tecnológico. 
Como grande filantropo que era, mostrava-se 
sempre de cabeça baixa em sinal de submissão. 

Era uma vez uma máquina de escrever 
que se avariou mesmo a tempo de evitar 
que fosse cometido um acto de desespero. 

Era uma vez uma tarde que ficou bloqueada 
numa compacta fila de trânsito e não chegou 
a tempo de assistir ao pôr do Sol. 

Era uma vez uma ideia que falhou 
devido a um corte de energia. 

Era uma vez uma lâmpada 
que se apagou por falta de amor. 

Era uma vez um salto olímpico 
que tinha por objectivo a felicidade. 

Era uma vez uma chávena sem asa 
que não sabia que fazer da sua vida. 

Era uma vez uma vida que ficou esquecida 
na prateleira porque não havia mais espaço 
para o seu coração. 

Era uma vez uma caixa completamente vazia 
e sem histórias para contar. 

Era uma vez um mundo que por falta de imaginação 
ficou redondo como um pássaro.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

TUDO A CINCO EUROS E ANTES QUE A POLÍCIA CHEGUE

Sobre a expulsão dos ciganos da França, tudo já foi dito com magistral lucidez no post do Funes. Apenas me atrevo a acrescentar uns pequeníssimos detalhes, pensamentos que me vão surgindo nos intervalos do meu bem dormir.

É um alívio viver num país tolerante como Portugal, deste território nacional nenhum cigano será mandado embora. O máximo que pode acontecer a essa gente é ser enxotada de junto da nossa vizinhança, aldeia, vila, cidade ou distrito. Se se mantiverem à légua, os ciganos são fixes. Até dão muito jeito para fazer com que as crianças comam a sopinha toda.

Além disso, a quem compraríamos a melhor roupa e sapatinhas de marca? São mesmo úteis quando moram debaixo da ponte e vendem tudo ao preço da chuva. Mas também, com o rendimento mínimo que recebem, têm o dever de nos prestar alguns favores, ou não?

Ah pois...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

OS ABRUNHOS

apresento queixa contra este açúcar veemente
contra estas abelhas azuis que picam os abrunhos

contra esta idade aberta ao ritmo do galope

contra o precipício que aparece sem aviso

caindo para dentro de outro céu, de outro grito


as cadeiras morrem e sonham e bocejam

e batem o pé

e partem-se porque estão derreadas de tanto sol

porque queimaram os braços com tanto mel

porque já não podem com tanta eternidade


não sei como as árvores não se desfazem no chão

talvez a única técnica de sobrevivência seja a morte

talvez o próprio sol precise de raízes para não apodrecer